Ouça o Comunicast que discute o Dia do Homem com a participação do Prof. Dr. Luiz Geraldo do Carmo Gomes.

Hoje, 15 de julho, comemora-se o DIA DO HOMEM. E daí me pergunto: TEM ALGO A SE COMEMORAR POR SER HOMEM NO BRASIL DE HOJE?
Alguns comportamentos masculinos nada sadios estão tão enraizados em nossa cultura que não temos percepção deles. É como se estivéssemos “anestesiados”.

___ (música)
Você ouviu: “Los Chicos no Lloran” (lançada em 1990), por Miguel Bosé, cantor, compositor e ator espanhol que teve capa de disco feita até por Andy Warhol.
A tradução de alguns trechos da música é:
“Com um canalha como eu
e um coração desempregado seria o suficiente?
porque eu sou louco e é mais
Eu sou louco e eu espero
Com um canalha como eu”
“É a minha vida, não quero mudar
meninos não choram, eles só podem sonhar
é a minha vida que eu não quero mudar
os meninos não choram eles têm que lutar
é a minha vida ah! É a minha vida ah!”

As novas masculinidades estão sendo “empurradas” para serem pensadas e acontecerem pelos movimentos das mulheres. Os homens, por si, não tiveram sensibilidade e capacidade de se repensarem sem as advertências femininas. Não era responsabilidade de vocês, então, muito obrigado mulheres!

É importante destacar que a masculinidade não deve ser pensada a partir da dicotomia masculino-feminino, ou seja, o masculino não é o oposto do feminino. Precisamos pensar o masculino a partir da própria construção de masculinidade, apesar do feminino poder ser um parâmetro.
Connell (1987, 1995, 1997) apresenta contribuições importantes nesse campo. Seu chamado à percepção de que não existe uma só masculinidade, mas sim, uma masculinidade hegemônica, que seria a masculinidade padrão considerada normal: “branca, heterossexual, dominante”
Trocando em miúdos: a masculinidade tóxica!

Para a ONU: masculinidade tóxica é uma construção social, que define um conjunto de regras que determinam comportamentos específicos esperados de indivíduos do sexo masculino. Devido a isso, pode impactar negativamente a saúde e o dia a dia de muitas pessoas.

A masculinidade é imposta e, no caso, da masculinidade tóxica, essas imposições costumam ser repressivas e ligadas a comportamentos violentos, valorizando a força física e transformando as emoções em um sinal de fraqueza. Por isso, afetam a vida dos homens em diversos aspectos e, inclusive, são capazes de perpetuar casos de homofobia, estupro e misoginia.

Vale dar uma olhada em alguns dados relacionados a isto:

As travestis ultrapassaram os gays em número de mortes violentas no Brasil. Em 2020, foram 161 travestis e trans vítimas da transfobia. Ao todo, 237 pessoas LGBT+ morreram de forma violenta – 224 homicídios (94,5%) e 13 suicídios (5,5%). Os dados são do Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no Brasil.
Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), a explicação mais plausível para a diminuição do número total de mortes violentas de LGBT em comparação com o ano anterior se deve ao “persistente discurso homofóbico do presidente da República” e sobretudo “às mensagens aterrorizantes dos apoiadores do governo nas redes sociais no dia a dia, levando o segmento LGBT a se acautelar mais”. (Congresso em Foco, 14mai2021)

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostra que das 66.123 ocorrências (repetindo: 66.123 ocorrências) de violência sexual contabilizadas pelas secretarias de segurança dos Estados brasileiros entre 2018 e 2019, 70,5% foram estupros de vulnerável – quando a vítima é menor de 14 anos ou não consegue oferecer resistência ao ato.
O Ligue 180, canal criado para mulheres que estão passando por situações de violência, e que funciona em todo o país e também no exterior, 24 horas por dia. Também é possível acionar esse serviço pelo Whatsapp. Nesse caso, acesse o (61) 99656-5008. Por fim, o Disque 100 também funciona 24 horas por dia e recebe todo tipo de denúncia contra os direitos humanos.

Para Claudia Luna, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB de São Paulo, as políticas públicas brasileiras hoje vão contra as mulheres. “Hoje, o Estado brasileiro é um Estado que odeia as mulheres. É um Estado misógino. É um Estado que reduz as políticas públicas para as mulheres”, afirma. “Isso é configurador de graves violações aos direitos das mulheres”.
De acordo com ela, a postura do presidente e de seus ministros é parte de uma estratégia de redução de direitos já conquistados. “Desde o início deste Governo há um retrocesso no que diz respeito às garantias de políticas públicas voltadas às mulheres”.
Misoginia é menosprezar as mulheres e seus direitos, desprezar e desrespeitar o feminino. Um exemplo prático é uma, dentre tantas, frases do presidente da república, Jair Bolsonaro:
“O Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay. Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora não pode ficar conhecido como o paraíso do mundo gay aqui dentro”.
A frase, além de uma violência às mulheres e um ataque homofóbico, despreza uma luta histórica para tirar do Brasil o rótulo de paraíso do turismo sexual, e, pior ainda, do turismo sexual infantil.

Com esses poucos exemplos, vamos percebendo os impactos, em diversos planos, da tal masculinidade tóxica. Que não é benéfica pra ninguém. Nem pros homens que a reproduzem, por incrível que pareça.
Existe uma sensação de manutenção de um poder, mas num contexto de sociedade oprimida, doente e sem perspectiva.

No dia 18 de novembro de 2019, a Organização Pan-Americana da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), lançou um relatório sobre o tema. Nele, destaca-se que um em cada cinco homens que vivem nas Américas morre antes dos 50, sendo que muitas dessas mortes são causadas por problemas diretamente ligados à masculinidade tóxica.

No relatório, a OPAS alerta para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis nos homens, vícios, acidentes de trânsito e homicídios, altas taxas de suicídio, que apesar de nascerem mais meninos do que meninas no mundo (105 meninos para 100 meninas), esse número começa a se inverter a partir dos 30 e 40 anos; na faixa dos 80, passa a ser de 190 mulheres para cada 100 homens. De fato, esses dados nos dão um alerta! Além de matar outros grupos, os homens são nocivos para si mesmos.

O relatório Masculinidades e saúde na região das Américas está disponível em inglês e em espanhol.

A discussão é densa, né?
Vamos ficar com uma citação de VALE DE ALMEIDA, 1996, p. 163 para refletir e depois voltamos com um convidado super especial:
“A masculinidade hegemônica é um modelo cultural ideal que, não sendo atingível (…) por nenhum homem, exerce sobre todos os homens e sobre as mulheres um efeito controlador”.

 

____ (música)

Você ouviu “Último Desejo” de Noel Rosa – 1937

“(…) Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não, diga que você
me adora

Que você lamenta e chora a nossa separação

Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não presto

Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida

Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.”

 

Segundo Oliven (1987, p. 55), a MPB é uma das “únicas instâncias públicas em que o homem se permite falar com sinceridade sobre os seus sentimentos em relação à mulher”. Muito embora entenda, como argumentado acima, que o gênero não deve ser pensado como uma oposição, ou mesmo como domínios masculinos e femininos separados, o que faz com que quando se fale de homem muito seja dito a respeito das mulheres e vice-versa

Bom, tenho a alegria e a honra de falar com meu amigo, o Prof. Luiz Geraldo do Carmo Gomes ou, simplesmente, LG.
O Professor LG é Pós Doutorando em Ciência Jurídica pela UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná. Postdoctoral Stage pela School of Law da University of Limerick (Irlanda). Doutor em Função Social do Direito pela FADISP – Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo. Professor de Direito Civil da UENP. Autor do livro “Famílias no Armário: parentalidades e sexualidades divergentes”, colaborou em diversas outras obras coletivas e artigos em periódicos. Facilitador de metodologias ativas para aprendizagem pelo Centre for Transformative Learning da University of Limerick. Pesquisador em Sexualidade, Gênero e Direito.

Tudo bem LG?
Obrigado pela sua participação no Comunicast.

Nosso tema hoje é masculinidade. O assunto surgiu por hoje, 15 de julho, ser o dia dos Homens.
Gostaria de saber um pouco das tuas impressões e pesquisas, a partir da sua vivência como homem e pesquisador.

1. No capítulo 3 do seu livro, “Escondendo-se no armário: a parentalidade insurgente”, dentre as citações que você apresenta, tem uma do Rodrigo da Cunha Pereira:
“Qualquer pessoa, qualquer criança, para se estruturar como sujeito e ter um desenvolvimento saudável, necessita de alimentos para o corpo e para a alma. O alimento imprescindível para a alma é o amor, o afeto. E afeto significa “afeição por alguém”, “dedicação”. Afeiçoar significa também “instruir, educar, formar”, “dar feição, forma ou figura”. Esta é uma diferença entre afeto e amor. O afeto não é somente um sentimento, mas sim uma ação. É cuidado no sentido de ocupação, preocupação, responsabilização e envolvimento com o outro.”
A gente sabe que no Brasil essa responsabilidade acaba recaindo mais sobre as mulheres-mães, mesmo quando o pai é presente.
Nesse caso, como você vê as consequências da não responsabilização do pai como provedor de cuidado afetivo?

2. Ainda com relação àquela citação, você acredita que o homem-pai pode não querer se responsabilizar para ser o provedor de afeto, justamente por não saber lidar com o afeto, dar afeto, ser afetuoso, talvez não ter recebido afeto? Ainda nesse sentido, então como a mãe aprende a ser afetuosa então?

3. Também no capítulo 3 do seu livro, temos outra citação, agora de Maria Berenice Dias: “Assim, a convivência dos filhos com os pais não é direito do pai, mas direito do filho. Não é direito de visitá-lo, é obrigação de visitá-lo. O distanciamento entre pais e filhos produz sequelas de ordem emocional e reflexos no seu sadio desenvolvimento.”
Por que na nossa sociedade essa presença paterna não é vista como obrigatória, mas como opcional, não como um direito do filho, mas como direito do pai. E como você entende essas sequelas de ordem emocional e de desenvolvimento sadio do filho com relação ao distanciamento do pai.

4. Na parte do seu livro que você fala sobre “Armário e Parentalidades”, você cita reportagens, dentre elas a que diz: “uma criança de 8 anos de idade teve seu fígado dilacerado pelo pai que não admitia que a criança gostasse de lavar louça e além disso era espancado repetidas vezes para aprender a “andar como homem”. Infelizmente nós ouvimos falas, como a de Patrícia Abravanel do SBT que afirmou que nós, LGBTs, temos que aprender a respeitar e a ter mais paciência com os heteros porque eles não têm obrigação de saber lidar com nossas questões. O pai hétero, então, não tem obrigação de lidar com as questões LGBTQIA+ do filho? Como você vê esse tipo de afirmação como a da herdeira Abravanel?

5. O seu livro é fruto da sua tese de doutorado. E se a gente percebe que no caso dos meninos cis-héteros já existem problemas na educação e responsabilidade dos pais com esses filho, o que você percebe quando a situação é de um filho não cis ou hétero, de sexualidade divergente? Qual foi a conclusão do seu trabalho de pesquisa? Em que medida ela se aproxima do que já temos de legislação e em que medida ela diverge?

6. Separei uma citação da Conclusão do seu livro, página 241: “O abandono sexual é uma realidade que assola a família brasileira e que está amparada na falsa moral sexual oriunda da matriz de poder, a qual legitima os pais a promoverem a violação de direitos e, acima de tudo, que corrobora com a inverídica ideia de um cuidado, quando necessariamente está promovendo um abandono.” Você gostaria de comentar?

LG, onde é possível encontrar seu livro?
Tem alguma novidade vindo por aí?
Passa pra gente o serviço do seu site.

Vamos de música?
Intervalinho pra tomar uma água.

 

___ (música)

Ouvimos Poema, de  Ney Matogrosso
Álbum: Olhos de Farol
Data de lançamento: 1999

A pressão social para fazer algo que você não deseja é um sinal claro da masculinidade tóxica. Esse encorajamento para provar a própria virilidade pode se repetir em diversas situações.

LG, Gostaria de te convidar para comentar algumas frases….
O Blog Vittude elencou algumas frases que revelam a masculinidade tóxica:

* Homem não chora.
* Homem não pode usar rosa.
* Só o homem gosta de sexo.
* Brincar de boneca é coisa de menina.
* Homem não faz serviço doméstico.
* Todo homem gosta de futebol e cerveja.
* “Macho de verdade” não vai ao médico.
* Homem precisa ser o provedor da casa. Caso contrário, é um fracassado.
* O homem que manda dentro de casa.
* Homem que gosta de X coisa (reality show, teatro, musicais, interesses tipicamente femininas) é gay.
* O que não acha em casa, o homem procura na rua.

 

Você já ouviu ou falou alguma dessas frases?
Hora de refletir sobre seus pensamentos, ações e práticas.

A masculinidade tóxica nos impede de  desenvolver a inteligência emocional para lidar com possíveis adversidades. É o território propício para que existam os chefes agressivos, os cônjuges hostis e os amigos desrespeitosos. Esse tipo de homem é incomum? Acho que não. Durante a vida nos deparamos com vários desses. Será que em alguma situação eu ou você fomos esse cara?
Esse contexto de pressão comportamental leva à inabilidade de administrar bem emoções como frustração, raiva ou angústia. A válvula de escape passam a ser os comportamentos nocivos, como atitudes inconsequentes (dirigir perigosamente ou brigar) e irritabilidade excessiva, a necessidade de provar a masculinidade o tempo todo.

 

A reflexão sobre nosso posicionamento enquanto homens nos leva à perguntas trazidas pelo Virtude a respeito dos nossos sentimentos:

1. Você já se sentiu mal por não querer fazer algo intrinsecamente masculino?
2. Você já fez algo que não queria ao sentir-se pressionado por amigos, colegas de trabalho ou familiares?
3. Você já teve sua sexualidade questionada por não querer fazer algo considerado masculino?
4. Já debocharam de você por demonstrar seus sentimentos abertamente?
5. Você já sentiu necessidade de mudar seu comportamento para agradar amigos ou parentes homens por se achar inferior a eles?
6. Você já tentou compensar um comportamento que acreditou ser indevido para um homem com algo externo?

 

E perguntas sobre nossas práticas:

1. Você já debochou de um homem por ele não corresponder as suas expectativas de masculinidade?
2. Você já fez um homem se sentir menos homem por não fazer algo que você faz ou considera correto?
3. Você já questionou a capacidade de um homem por não fazer algo tipicamente masculino?
4. Você já quis mudar um homem por achar que seu comportamento é contra os seus princípios de masculinidade?
5. Você já questionou a sexualidade de um homem por ele não agir como você esperava?

São muitas perguntas. E, talvez, as respostas não sejam as que gostaríamos.
Então, O que fazer com as respostas? O Virtude dá algumas dicas:
Em primeiro lugar, reflita sobre os seus relacionamentos. Eles são uma ótima maneira de nos dizer como estamos navegando a nossa vida.
Em seguida, pense em seu próprio comportamento. Você sente que está sufocando a sua personalidade para agradar os demais? Se sim, está na hora de ser verdadeiro. Enfrentar pressões sociais e aceitar a si mesmo em sua totalidade parece assustador, mas é uma experiência libertadora.
Por fim, avalie suas próprias convicções. Nossas crenças ditam quem acreditamos que devemos ser. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, elas não são imutáveis. Podemos trabalhar nelas quando necessário, ainda que muitas tenham se formado na infância ou juventude.

A Terapia é uma excelente aliada para turbinar esse processo.

LG, muito obrigado pela presença, pelas importantíssimas reflexões.

 

O Comunicast deixa pra vocês algumas indicações…

INDICAÇÃO DE LIVRO: Homens no Divã: Relatos sobre a crise de identidade, do psicanalista francês Serge Hefez.
INDICAÇÃO DE DOCUMENTÁRIO: O silêncio dos homens (Youtube)

INDICAÇÃO DE PODCAST: Memoh (Spotify)
INDICAÇÃO DE ARTIGO: Masculinidades e Música Popular Brasileira, Pedro Francisco Guedes do Nascimento – Latitude, Vol. 07, no 1, pp. 109-127, 2013

 

#ParaTodosVerem – A imagem da capa apresenta oito homens com diferentes estaturas e tipos de corpos. A maioria deles sorri e olha para a câmera. Dois deles se entreolham. Todos usam apenas cueca tipo samba-canção azul turquesa. O fundo é branco e por toda a imagem se vê o símbolo de masculino. Para acessar a imagem e a matéria sobre diferentes corpos masculinos (em inglês), clique AQUI.