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Esses dias aconteceu uma situação engraçada. Não, não foi um micão em uma rua movimentada, um “deja vú” de um acontecimento da anos atrás ou um desentendimento com uma pessoa ou entre pessoas desconhecidas em um ônibus movimentado. Foi com meu avô. Um típico senhor do interior, que nasceu e cresceu na fazenda, mas que mudou de cidade quando se casou com a melhor doceira do Mundo, minha nonna.

Passei o último final de semana em sua casa e, como é de praxe, levei todos os eletrônicos possíveis e imagináveis, já que eles são meio “avessos” à toda essa tecnologia, que “roubam toda a juventude e não deixam as crianças brincarem como antigamente, se movimentar, subir em árvores, andar de bicicleta, se reunir com os amigos e brincar na rua, ralar o joelho e ter que passar álcool para desinfetar”, de acordo com suas palavras. Na minha visão, isso não é completamente verdade: sou uma pré-adolescente de 13 anos muito da ativa, até jogo videogame com sensor de movimentos.

Pois bem, em um desses casos, enquanto jogava meu Wii Sports na sala toda animada por estar conseguindo ganhar do adversário, me empolguei demais e acabei “esbarrando” o braço em um troféu de futebol, que se espatifou no chão. Meu avô veio correndo da cozinha, provavelmente achando se sua querida neta não estaria machucada. Mas não foi exatamente assim:

  • Aaaah! O que aconteceu, menina?! Esse troféu era uma lembrança de infância muito importante pra mim! Está achando que esta aqui é a casa da mãe Joana?!

“Joana?”, pensei. “Quem será essa mulher?”. Mas meu avô continuou:

  • Meu time da escola ganhou esse troféu em 1950, quando eu tinha sua idade. Já te falei que foi o nosso primeiro, não falei?! Por isso deixo ele aqui na sala, pra me lembrar desse momento, e agora está arruinado! Aaah, menina! – ele realmente ficou bravo, mas depois de se lamentar, parece que se “acalmou” – Mas agora não adianta chorar pelo…
  • …arquivo deletado…? Se bem que nesse caso teria que ser “pelo jogo perdido”, ou pelo “troféu derrubado”.
  • O quê?
  • “O quê?” o que?
  • Esse ditado que você acabou de dizer.
  • Que ditado? “Não adianta chorar pelo arquivo deletado”…?
  • Que é isso, menina?! O certo é “pelo leite derramado” – ele parecia confuso e bravo ao mesmo tempo, mas continuei o assunto:
  • Eu sei, vô. Mas quem é que vai chorar pelo leite que derrubou?! É só pegar outro copo, ué. As pessoas deveriam chorar é pelo arquivo que deletou sem querer ou se o computador “dá pau” e você perde tudo o que estava fazendo, faz muuuito mais sentido.
  • Mas o sentido não é literal assim, menina!
  • Não? Então como é?
  • Esse ditado quer dizer que não adianta chorar, reclamar por algo que já passou, pois é algo que não voltará, entendeu?
  • Aaaah, entendi… Mas de onde veio isso? Quem inventou?
  • Ouvi dizer que há muito tempo, uma jovem camponesa levava um balde com leite na cabeça e, distraída pensando nas coisas que poderia comprar com o dinheiro que recebesse da venda, acabou tropeçando, caindo e derramando tooodo o leite pelo chão. Quando viu aquilo, percebeu que não seria nada prático ficar se lamentando por causa do fato que já tinha acontecido, porque nada faria com que aquela situação se remediasse.
  • Que interessante, vô!

Depois dessa, vi uma oportunidade de desviar daquela situação e não receber uma bronca, já que meu avô adora contar as histórias dele e transmitir seus conhecimentos populares, mas acontece que ele achou uma forma, digamos que, criativa, de me punir pelo objeto espatifado:

  • Pois é, já ouviu aquele que diz “Águas passadas não movem moinhos”? – começou, enquanto se sentava no braço do sofá – Quer dizer quase a mesma coisa do outro ditado, ou “A esperança é a última que morre”? Esse vem lá da mitologia, quando Prometeu criou a humanidade e aprisionou em uma caixa todos os males, entre eles a esperança, mas Zeus, que teve o fogo do Olimpo roubado por ele, o condenou e criou Pandora, uma mulher que encontrou a caixa e a abriu, libertando todos os males que condenaram a humanidade. Só graças a esperança mesmo pra continuar vivendo; e digo isso, pois ainda tenho esperança que possamos consertar esse estrago, viu?
  • Poxa, vô. Foi muita mancada mesmo, me desculpa… Mas conta aí mais sobre essas coisas de ditados, tem aquele “Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla”, é parecido com essas daí, não? Não tô apertando o botão do controle aqui, ó.
  • “Quem nunca errou que atire a primeira pedra”. Esse aí eu ouvi de uns compadres meus, veio de uma passagem da Bíblia, quando uns homens trouxeram uma mulher a Jesus acusando-a de adultério e queriam apedrejá-la. Sabia que antigamente, mulheres que supostamente traiam seus maridos eram apedrejadas até a morte? Pois é, infelizmente ainda acontece em alguns países muçulmanos. Mas continuando, Jesus, que escrevia algo na terra, disse: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”. Então, ao invés de condená-la, aqueles que a acusaram desse ato começaram a sair um a um, até ficar ela e Jesus, que também não a condenou.
  • Como você sabe disso tudo?!
  • Aaaah, antigamente a gente conversava de verdade com os amigos, não é que nem vocês, jovens, que ficam só nesse computador, celular aí jogando joguinhos e falando bobagens. Aquele tempo é que era bom, a gente…

Ele já estava com aquele olhar nostálgico de quando começava a falar da infância e adolescência na fazenda. Poderiam ser tempos complicados, mas sabia que gostava deles. Sabia também que ele já começaria o papo de sempre comparando “nossas épocas” e, como já tinha informações suficientes sobre isso, decidi encerrar aquele assunto:

  • Ããããh, entendi, vô! Vamos… ãh, dar um jeito nisso aqui, né?!
  • Ah, sim. O “leite derramado”. “Vamos”, não, você vai. Vai recolher essa bagunça e pensar em um jeito de arrumar meu troféu, certinho. E sem esses joguinhos o resto do dia.
  • Pooooxa, vou ter que fazer tudo isso sozinha?! Que sacanagem!!
  • Claro, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E, a partir de agora, vou manter “um olho no peixe, outro no gato” – finalizou, enquanto saía da sala em direção à cozinha novamente.

No final, acabei um pouco confusa com o que ele quis dizer com aquilo, mas imaginei que eu fosse o gato, ou gata. E ainda tive que recolher os pedaços do troféu e dar um jeito de colar. Mas não deixou de ser um dia e uma conversa… Peculiar.

 

PS: Depois desse acontecimento, até que fiquei curiosa sobre esses ditados populares, já que “quem tem dedo vai a roma.com”, então corri pro meu notebook e andei dando uma pesquisada e, olha, achei esse livro maravilhoso da escritora J.J. Costa, “A Sabedoria dos Ditados Populares” e algumas matérias tão interessantes, como o da Gazeta do Povo e da Mundo Estranho, que até passei a usar no dia-a-dia, para espanto do meu avô e dúvidas dos meus amigos.

*Thamlym e Leila foram responsáveis por tornar esse conteúdo mais acessível.