Diariamente passamos uma grande quantidade de tempo assistindo vídeos no Youtube, ouvindo músicas ou vendo fotos de outras pessoas nas redes sociais, como o Instagram e o Facebook. Existem pessoas que passam mais de 8 horas fazendo essas atividades, ou seja, elas disponibilizam a maior parte do seu dia consumindo experiências alheias. A cada 20 minutos que são dispendidos com observações imagéticas virtuais são deixados de lado 20 minutos de vivência pessoal, isto é, deixamos de experienciar a realidade para transportarmo-nos pelo mundo muitas vezes irreal ou até ideal da vida dos outros. E, afinal, qual o impacto disso em nossas vidas?

Bem, o gasto de tempo em redes sociais atualmente é muito debatido pelos estudiosos de comunicação ou psicologia. A discussão de que as redes sociais nos priva de relações cara a cara não é nova e está longe de ser esgotada. E, de certa forma, não está totalmente errada. Se considerarmos que as relações que criamos virtualmente podem vir a ser frágeis (ou líquidas, parafraseando o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman) e as vezes nem chegamos a construir relações em redes como o Youtube e o Spotify (frequentemente entramos nessas plataformas como observadores/ouvintes), podemos considerar que é normal que o tempo gasto nessas atividades não nos dê um retorno da mesma forma que uma experiência offline nos daria.

O YouTube é uma rede social na qual qualquer indivíduo tem a possibilidade de publicar um vídeo, esse fato abriu espaço para que muitas pessoas publicassem desde dicas de beleza e receitas culinárias até experiências pessoais, ideias, pensamentos, histórias, momentos do dia a dia, entre outras tantas coisas. Dessa forma, quando assistimos a um vídeo nessa plataforma estamos consumindo experiências de vida de outras pessoas que nem conhecemos. Consumir o que outras pessoas fazem ou fizeram não nos torna indivíduos mais ativos. Pelo contrário, nos conformamos em sermos meros observadores da atividade de produtores de conteúdos e deixamos de experienciar o que está ao nosso redor e de fazer valer nossas próprias vidas. O tempo que gastamos assistindo diários de viajantes pelo mundo poderíamos estar planejando nossas viagens ou mesmo conhecendo e observando com nossos próprios olhos o mesmo local. A experiência é completamente diferente quando você mesmo a vive, não acha?

Da mesma forma, quando passamos horas assistindo a um músico tocar um instrumento ou mesmo quando ficamos a noite toda ouvindo a música de uma determinada banda estamos deixando de lado a possibilidade de aprendermos a tocar instrumentos, de criarmos nossas bandas e músicas de nossa autoria. É muito frequente ouvir relatos de pessoas, quando mais jovens, que sonhavam em ter sua própria banda ou tocar um instrumento musical, mas foi desencorajado pela família, amigo, etc. Além disso, o medo de arriscar e a dificuldade que esse aprendizado gera acaba por espantar muitas pessoas que preferem ouvir passivamente outra pessoa tocando do que passar horas do dia e anos da vida praticando. É muito mais fácil em um clique acessar um solo de um pianista do que demorar anos para executar perfeitamente uma música de Chopin.

De maneira semelhante ao Youtube, os usuários do Instagram estão livres para publicar seus próprios conteúdos, e o que vemos frequentemente são pessoas postando fotografias de si mesmas, do prato bonito que comeram no café da manhã, do por do sol na praia, da festa de sexta a noite, e por aí vai. Dessa forma, o tempo que passamos observando os feitos alheios podemos viver nossas próprias aventuras e escrevemos aos poucos nossas próprias histórias. Afinal quando envelhecermos e os nossos netos perguntarem-nos nossas histórias iremos contar sobre dia que passamos a noite assistindo Netflix, dos dias que ficamos assistindo vídeos de receitas de torta de maçã, ou de quando nos divertimos saindo com os amigos a noite e quando fizemos uma torta de maçã deliciosa e comemos no café da tarde?

É claro que é interessante conhecer outras experiências, pontos de vistas e possibilidades que estão disponíveis no Youtube ou Spotify, mas quando o que fazemos é unicamente observar as ações de outros seres pode ser arriscado para a nossa constituição como indivíduos sociais e ativos. É muito importante para crescermos como pessoas que tenhamos nossas próprias experiências e que criemos nossos próprios repertórios e sabedorias pela vivência. Quando estamos dispostos a arriscar temos a possibilidade de viver a mais humilde experiência: estamos dispostos tanto a errar, a sofrer, a aprender, a se arrepender, quanto a aproveitar, saborear, sentir, curtir e viver.

A sociedade como um todo precisa de indivíduos atuantes dispostos a transformarem sua realidade e a fazer a diferença, e não de indivíduos passivos conformados em meramente observar realidades de outras pessoas. Para poder exercer sua cidadania, um indivíduo precisa saber tomar suas próprias decisões sozinhos e isso é resultado de reflexões, diálogos e vivências sinceras, assim é preciso aprender a opinar e não apenas a consumir opiniões. Além disso, nas próprias relações interpessoais é necessário uma dose de experiência própria e autoconhecimento, o qual a melhor forma de se obter é se permitindo aproveitar novas oportunidades e conhecendo outras realidades. Não tenhamos tanto medo de arriscar!