O novo filme da Netflix “A gente se vê ontem”, do diretor Spike Lee, conta a história de dois adolescentes negros, C.J. e Sebastian, estudantes do ensino médio e também inventores. No filme, os dois trabalham em um projeto para a feira de ciências do colégio: uma mochila que os permite voltar no tempo. O filme foi lançado no dia 03 de maio na plataforma e tem sido chamado pelos críticos de “O de volta pro futuro de 2019”. Entretanto, o filme usa o intrigante elemento da narrativa da ficção científica, para fazer uma crítica ao racismo estrutural que permeia a formação dos jovens negros nos Estados Unidos.

O filme narra os desafios da formação educacional de dois jovens negros, considerados brilhantes, mas que mesmo assim, são perpassados pelas problemáticas diárias do racismo estrutural e a violência policial nos Estados Unidos, problema que ainda afeta a vida de toda a população negra do país, mesmo em 2019. Assim que C.J. e Benjamin conseguem sucesso em sua invenção e voltam no tempo 24 horas, o irmão de C.J. é assassinado por um policial branco, que relata ter sido um “mal entendido”. A jovem então se vê impelida a usar sua invenção para reverter o terrível crime.

O movimento Black Lives Matter aparece no filme protestando a morte do irmão de C.J., Calvin, e a ação policial violenta e racista. O movimento surgiu nos EUA em 2014, em resposta ao assassinato de Michael Brown e Eric Garner, dois jovens negros desarmados que foram assassinados por policiais em suas cidades. O movimento cunhou uma fundação (The Black Lives Matter Foundation), criada por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, 3 mulheres negras, e se propõe a não só lutar contra a brutalidade policial, como também contra as condições econômicas, sociais e políticas das pessoas negras nos EUA, sustentadas pelo racismo estrutural no país.

O racismo estrutural, segundo a Dra. Maria Sylvia de Oliveira, presidenta do Géledes, Instituto da Mulher Negra, é um resultado do período escravocrata e no Brasil é consequência de uma série de medidas, inclusive institucionais, de reafirmação da marginalização da população negra durante e após o período da escravidão. A falta de igualdade de oportunidades e reparação pela violência sofrida, que veio após o processo de abolição da escravatura, bem como a imagem social – amparada cientificamente – que se construiu do negro no Brasil, é aquilo que ainda hoje repercute nas vidas dessas pessoas. No vídeo abaixo, a autora cita, por exemplo, a lei instituída no Brasil Império, em 1824, que proibia as pessoas negras de estudarem, antes mesmo de ser instituída a Lei Áurea:

 

No último 16 de maio, aconteceu no Rio de Janeiro um protesto semelhante: O ato “Parem de nos matar”, coordenado por moradores das favelas do Rio e com apoio de diversos movimentos sociais, protesta o aumento da violência policial na capital, onde policiais tem verdadeiras “ordens para matar” e sobrevoam as favelas com seus helicópteros dia e noite. Os representantes do evento visavam protestar o assassinato do gari comunitário William dos Santos Mendonça, na favela do Vidigal. A porta-voz do evento, Bárbara Nascimento, afirmou em entrevista:

“É um ato a favor de nossas vidas, é para que parem de nos matar, parem de matar a juventude negra favelada, parem as incursões em horários escolares, parem de entrar em nossas casas sem mandato, parem de criminalizar nossa existência”.

Arte de convocação para o ato "Parem de nos matar" no Rio de Janeiro

Arte de convocação para o ato “Parem de nos matar” no Rio de Janeiro

Spike Lee, sempre perfeitamente crítico e atual, conta a história de muitos jovens e famílias negras ao contar a história de C.J. e seu amigo Benjamin, suas histórias não se resumem às tragédias ocorridas, suas famílias são extremamente unidas e a amizade e o amor familiar movem montanhas e dimensões temporais. Ao se recusar a aceitar o presente como sendo aquele em que seus entes queridos morrem, C.J. está construindo sua própria narrativa temporal: uma história em que ela e seu irmão Calvin e seu amigo Sebastian possam ser apenas jovens se preparando para o ingresso na universidade e a violência e o olhar do mundo já não tem poder sobre suas histórias.

 


Referências e fontes:

The Guardian

Revista Forum

Géledes