Há poucos meses um meme tomou conta das redes sociais – tratava-se do áudio de uma garota afirmando exaltadamente que mereceu os privilégios para ocupar um cargo na empresa de seu pai. Não demorou muito até a sua ‘viralização’, e rapidamente a frase já estava na boca de vários jovens e internautas.

Se o meme em questão for colocado em análise, poderá ser reverberada em reflexões interessantes, e algumas delas trazemos aqui de formas contextualizadas. Assim, primeiramente, a associamos com a atividade “jogo dos privilégios” que coloca os participantes lado a lado em uma linha, e conforme vão respondendo ‘sim’ as perguntas lançadas pelo o ministrante dessa prática, os jogadores vão avançando um passo a frente dos demais, isto é, reconhecendo seus ‘próprios privilégios’ em relação aos outros. Perguntas como: “Seus pais abandonaram os estudos pelo o trabalho para suprir as necessidades de sua casa?”, “Você precisa pegar um ou mais meios de transporte para chegar a sua faculdade?”. O vídeo a seguir é um exemplo dessa atividade:


Muitos de nós possuímos – alguns ou até muitos – privilégios em comparação a outros indivíduos, sem mesmo se dar conta que o têm. O jogo acima quando realizado, propõe ao grupo que o pratica uma análise e um primeiro passo para a autoconsciência de se reconhecer e entender em qual posição de ‘privilegiado’ está. Ele percorre caminho inverso do que é proposto pela a fala meritocrata contida no meme (quanto a isso, é interessante retomar que pouco se sabe sobre sua origem, de quem seja a tal garota, ou se até mesmo pode ser considerado um áudio real ou uma brincadeira que ganhou repercussão).

Levando o tal jogo e a análise do mesmo meme para um recorte na área da Educação, a nossa própria atual Constituição Federal vigente garante a Educação como um direito do cidadão e um dever do Estado. No entanto acontece de tal bem público ter uma distribuição desigual entre os ‘iguais’, e é nesse momento que políticas públicas precisam ser acionadas para que as pessoas – em todas suas respectivas individualidades – possuam a igualdade de condições para o acesso [do conhecimento], e não apenas, mas como também a garantia da permanência nesses lugares. Assim, se o áudio for levado a uma interpretação literal, um dos entendimentos cabíveis – se não o único – é que apenas estudantes com condições de permanecer após ingresso a esse sistema de ensino, são os merecedores de ocupar este lugar definitivamente, quanto aos demais, foi porque não se esforçaram o suficiente.

Dando um mergulho maior  nesse recorte educacional, recentemente na Universidade Estadual de Maringá, com apoio da mobilização estudantil ao lado do Diretório Central dos Estudantes, foram conquistadas 180 bolsas de auxílio-alimentação (isto é, fornecimento gratuito de almoço e jantar no Restaurante Universitário) para graduandos e pós-graduandos em questões de vulnerabilidade socioeconômica, que conforme levantamentos de dados feitos pela a PAE (Programa de Assistência Estudantil) do câmpus, em alguns casos houve-se estudantes que chegavam passar o dia com dinheiro suficiente para a apenas uma refeição. Esse ponto, contudo, já refletiu e poderia continuar reverberando na evasão de alunos da universidade, tornando-a assim mais elitizada. “Se eu tenho uma alimentação digna foi por que eu mereci?” nos perguntamos ao questionar a fala meritocrática analisada no áudio.

Essa conquista é uma exemplificação de políticas públicas que tenta nivelar o direito, acesso e permanência à educação. Nesse caminho, a análise proposta rompe com o pensamento de que cotas sociais, por exemplo, já seria uma medida suficiente para a democratização do Ensino Superior.

Entretanto, além dessa vitória, há outras lutas bem próximas que precisam de nós, como a questão da Universidade aderir ao sistema de cotas raciais. Contudo, nosso primeiro passo é reconhecer em qual nível de privilégio estamos, e em seguida, se mobilizar para que outras pessoas assim como nós, tenham a equidade para receber um acesso democratizado ao conhecimento. Afinal, já pensou de agora experimentar o “jogo dos privilégios” com os seus amigos ou “se eu não me importo em saber o que acontece com os outros foi por que eu mereci?”