Não existe lugar neste mundo que não pertença às mulheres. Com um passo de cada vez, vamos conquistando o reconhecimento merecido em todas as esferas: políticas, sociais e profissionais. Falar da condição feminina e do feminismo no século XXI, é falar também de espaços que nos foram historicamente negados ao longo do tempo. E então, que tem o humor que o faz parecer como avesso da condição feminina? Vejamos, para se fazer humor é imprescindível que saibamos rir de nós mesmos, que estejamos dispostos a falar besteiras, a fazer papel de bobo e a atingir mesmo um ridículo. E esse papel, essa dimensionalidade necessária para se rir de uma pessoa mas respeitá-la ao mesmo tempo, é um papel proibido para as mulheres.

O humor é e sempre foi uma ferramenta poderosíssima, com ele, o discurso politicamente subversivo se transforma em sátira: faz rir, emociona, critica e leva ao questionamento. Por isso ainda, nos é limitado o direito ao humor. Satirizar e ironizar os poderosos homens e suas frágeis representações no mundo é impensável, mais ainda vindo daquelas que o devem admiração. A escritora e jornalista portuguesa Maria O’Neill, defendeu o uso da sátira como uma forma de inverter a lógica de poder, imposta pelos machismos de sua época. Em seu texto “Mulheres”, de 1911, fez essa bem humorada provocação:

“Falar mal das mulheres! É possível? Que defeitos se podem apontar a seres tão perfeitos?  Depois, o espírito de classe, que nos leva sempre a acudir umas pelas outras, que hei de fazer dele? Falar mal das mulheres! Não, a tarefa não é fácil… é mesmo muito difícil e chego a temer que exceda as minhas forças. Se fosse dos homens, vá! Há tanto que dizer deles, tanto que lhes censurar! Mas delas, pobres criaturas…”

Ilustração de Maria O'Neill para a Revista Sátira, 1911.

Ilustração de Maria O’Neill para a Revista Sátira, 1911.

 

Ainda há muitos desafios para as mulheres humoristas, desde os papéis estereotipados, que pretendem antagonizar e fazer chacota do ser mulher, até os salários, sempre inferiores aos dos seus colegas homens. Contudo, humoristas brasileiras como Tatá Werneck, que recentemente transferiu seu programa “Lady Night” para a Rede Globo, desafiam essa lógica: Tatá faz um programa em que ela é a protagonista e dá um show falando dos temas mais diversos possíveis. A humorista mostrou sua competência, conquistou muitos fãs ao longo de sua carreira e hoje é uma das mais famosas humoristas brasileiras.

 Muitas outras humoristas contemporâneas também fazem sucesso desafiando as limitações do ser mulher na modernidade. É o caso da atriz e comediante americana Ali Wong, que é hoje uma das mais bem sucedidas comediantes femininas, tendo dois especiais de Stand-up em parceria com a Netflix. Em seu especial “Hard Knock Wife”, Ali, que é descente de vietnamitas e chineses, choca ao se apresentar grávida de 7 meses e choca ainda mais com os temas que aborda: a desromantização da maternidade, a desconstrução do papel feminino no casamento e do papel da mulher asiática nos Estados Unidos.

O resgate histórico de ferramentas de subversão é fundamental para o avanço das pautas das minorias, precisamos de mais espaço para mulheres que queiram fazer isso através da comédia. Precisamos valorizar a arte que questiona o status quo, que se coloca na linha de fogo para ridicularizar aqueles que ousam subestimar a rebeldia das minorias. A sátira e o humor feminista – mas não só o feminista – são fundamentais para a inversão dessa lógica. É necessário que façamos graça com aquilo que tenta nos submeter, fazer questionável a sua própria autoridade.