Com um ambiente político tão conturbado, gritos de “volta à ditadura” são ouvidos por diversos cantos do país. A fraca memória histórica desta época e a pouca referência dada nas escolas,  faz -se avivar uma corrente que deseja que os direitos civis sejam retirados.

Para que possamos relembrar, a ditadura civil-militar no Brasil foi um período entre 1964 e 1985, no qual, através de um golpe militar, a democracia foi deposta, dando lugar a um governo controlador, retirando direitos civis e instaurando uma censura rígida.

Como se sabe, durante os 21 anos, vários Atos Institucionais foram instaurados como armas ideológicas das ações políticas praticadas durante o regime. Esses A.I.s, principalmente o AI nº5, foram os causadores do exílio de diversas pessoas, dos fechamento de centenas de jornais, censura ao extremo e até mesmo, responsável pelo desaparecimento de milhares de pessoas que, como hoje se sabe, foram mortos pelos militares.

Como uma forma de denunciar os desmandos do governo e expressar todo o problema do Brasil,  diversos artistas atuaram contra a ditadura, utilizando-se de sua arte para expressar suas opiniões. Essas ações, necessitavam ser feitas por meio de metáforas, pois, devido o controle rígido do governo, todo e qualquer material declarado como subversivo, era censurado e seus autores poderiam pagar as consequências.

Nesse período, as charges, assim como as músicas, tiveram grande destaque. O cartunista mineiro – ou jornalista do traço, como gostava de ser conhecido – Henrique de Souza Filho, o Henfil, ao lado de grandes nomes como Ziraldo, Jaguar e outros, lutou ativamente à favor da restituição da democracia, sendo um dos artistas mais engajados a favor da anistia.  Henfil deu vida à personagens memoráveis como o Fradim, Bode Orelana e a queridinha Graúna.

As charges, como dito por Luiz Guilherme Sodré Teixeira (2005), são uma “arma de grosso calibre a favor da opinião pública”. E Era isso que Henfil fazia: utilizava os seus desenhos como um aliado da expressão popular. Dava voz (ou traços) aos gritos oprimidos da população. Ele mesmo defendia a charge como uma poderosa arma política, que, além de fazer rir, deve fazer pensar. Dizia que o humor tinha que dar um soco no fígado de quem oprime. 

“Procuro dar meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nessa eu não estou: meu negócio é pé na cara. E levo o humorismo a sério.”

Suas charges criticavam a atuação do governo, mostrando, principalmente a dura realidade brasileira que muitos tentavam esconder: população passando fome, salários baixos, principalmente para professores, dentre vários outros problemas. Suas charges ficaram então, como registro histórico desse época, atuando como uma fonte de informação interessante, pois apresentava aquilo que não se podia dizer literalmente.

Fonte: gazetadopovo.com.br

Fonte: gazetadopovo.com.br

 

Henfil teve uma grande atuação nas ações que culminaram no Diretas Já. Inclusive sua charge, com a caricatura do político Teotônio Vilela, conhecido por sua militância em favor das eleições diretas, foi utilizada como símbolo do movimento. Ironicamente, Henfil morreu em janeiro de 1988 e não pode ver o brasileiro votar para presidente, questão pela qual tanto lutou.

Caricatura de Teotônio Vilela - Diretas Já. Fonte: Livro Diretas Já, 1984

Caricatura de Teotônio Vilela – Diretas Já.
Fonte: Livro Diretas Já, 1984

Como uma das formas de criticar a  ditadura e seus envolvidos, o cartunista criou o “cemitério do mortos-vivos”, no qual “enterrava” personalidades que, de alguma forma, colaboraram com a ditadura. O cemitério foi uma forma de expressar que era necessário lutar, pois quem não o fazia, já estava morto.

Vários nomes foram enterrados por Henfil, dentre eles Roberto Carlos e Elis Regina. Curioso lembrar que  Elis Regina entoou diversas canções que hoje são lembradas por conter mensagens sobre os problemas da ditadura , como por exemplo Arrastão, Como Nossos Pais e  O Bêbado e o Equilibrista, que tornou-se música tema da anistia. Nesta musica, inclusive, Henfil e seu irmão Betinho são citados em um dos trechos.  Vale ressaltar que Betinho foi um sociólogo fundador da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Sobre o “enterro” de Elis, Henfil dizia-se arrependido por tê-lo feito, afinal, a cantora foi uma das artistas mais engajadas à favor do restabelecimento da democracia.

Cemitério dos Mortos-Vivos. Fonte: Jornal O Pasquim, 1972

Cemitério dos Mortos-Vivos. Nos túmulos é possível ver os nomes de Roberto (Carlos), Tarcísio e Glória, 10 (Pelé), Gracindo Ramos e Marilia Pera. Elis Regina é representada como a regente do “coral”.
Fonte: Jornal O Pasquim, 1972

Henfil morreu jovem, com apenas 43 anos, devido ao vírus HIV contraído após uma transfusão de sangue necessária devido sua hemofilia. (Betinho, seu irmão, teve o mesmo destino).  Este ano completamos trinta anos da sua morte com um cenário político sombrio, com as eleições presidenciais apresentando generais e capitães sedentos pela volta ao poder.  Nós, do Comunica Uem (e todos aqueles à favor da democracia), esperamos que a luta de Henfil não tenha sido em vão e que seu traço permaneça vivo, lembrando-nos que sempre é preciso lutar, pois senão, já está morto. 

Charge de Henfil sobre os militares. Fonte: http://www.abi.org.br

Charge de Henfil sobre os militares.
Fonte: www.abi.org.br

Fonte:

Memórias da Ditadura

Henfil. Como fazer humor político, Editora Vozes, 1985

Teixeira, Luiz Guilherme Sodré. Sentidos do Humor, trapaças da razão: a charge. Fundação Casa de Rui Barbosa. 2005