Já ouviu falar de Big Data?

Se você for do campo de TI possivelmente está familiarizado e pode até ter conhecido estudos que o envolve, como por exemplo estrutura de dados. Mas é de interesse de todos, os espectros que esse assunto aborda. Para isso iremos tentar falar de um modo mais “humanas” desse tema, arriscando até citar um teórico social.

A palavra Big Data vem da ideia de armazenamento de dados e ao contrário do que se pensa ele não está associado inicialmente a um conhecimento de exatas. O nascimento da escrita já vem com esse intuito e se aprimora com os números, códigos e vários outros símbolos que facilitam a conservação de conhecimentos, indo do armazenando dos documentos históricos aos saberes físicos. No entanto imagine uma fusão desses vários conhecimentos buscando criar um tipo de depósito de informação tão grande que coloca em xeque o livre arbítrio. Para começarmos a explicar esse assunto vamos retroceder um pouco no tempo.

Michael Foucault em 1975, publica o livro “Vigiar e Punir” onde faz uma análise poderosa que mostra as modificações das punições do corpo, a qual ele chama de suplício da carne, mostrando que conforme o tempo vai passando punições mais complexas e abstratas é identificada, não mais na carne mas em títulos renegados, em prisões e que muda o tratamento dos punidos com a sociedade. Os modos de vigília também são abordados no livro e mostra uma modificação ligada às punições, aprimorando estratégias dessa ação. Como a vigilância de um olho invisível nas prisões, o Panóptico, na busca de criar uma paranoia entre os detentos visando estabelecer a ordem dentro da instituição.

panopticoPanóptico idealizado por Bentham (desenho do arquiteto inglês Willey Reveley).

 

Outro conceito interessante do pensador é a ideia de modificação do indivíduo, em seu princípio, tendo suas relações de poder social com a expressão da força material, como as produções do trabalho. Conforme a fluidez dos séculos progride, o indivíduo se modifica em um amontoado de código e de saberes que abrange ou limita a sua relação de agente com a sociedade.

Com essa síntese anoréxica de Foucault, e espero que correta para não incomodar o amigo imortal, mostraremos dois princípios centrais, buscando uma união dos sentidos com o tema do artigo: O primeiro, da nova importância do ser humano que não advém mais de um poder material do trabalho, ela se complexifica em um conjunto de saberes do indivíduo que mudam e relacionam com a sociedade. E segundo, uma vigilância instruída por um objetivo de ordenação.

O que toda essa volta no tempo e em conceitos tem haver com banco de dados? Ai que vem a grande problemática, o uso de um Big Data. Tendo essa informação gigantesca, fica fácil ao dono de um Big Data identificar comportamentos humanos por meio da vigília de registros de mídias sociais, questionários e outros métodos muitas vezes insidioso.

O propósito desse banco de dados, tão sofisticado, é identificar todos os comportamentos do indivíduo por meio dos saberes que o constitui. Conseguindo assim, ordenar para nichos específicos as pessoas, conforme os objetivos dos detentores da tecnologia. Gostariamos de abordar este assunto de forma mais fictícia e brincando com um universo dicotômico. Mas acho que já não podemos mais fazer isso, se trata de realidade.

Para uma pessoa que informa bastante em noticiários, já começou a ouviu falar de coisas parecidas. Por exemplo a eleição de Donald Trump: onde o Facebook  buscou por meio de questionários, muitas vezes inocentes, padronizar perfis de pessoas e vincular notícias com certas tendências buscando influenciar um seleto público a favor de Trump.

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O Facebook tem um dos bancos de dados mais ricos contendo informações do mundo todo. E sua disposição é querer mais, como mostra a matéria do El País.

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Entendemos que existe benefícios que possam ser alcançados com o Big Data, por exemplo as boas mix de recomendações musicais que o Youtube faz. Mas o assunto promove um debate muito mais importante e com todas as empresas envolvidas.

O vínculo e o direcionamento de informações a grupos não se limita apenas a manipulações. Em nossa atualidade criamos nossas noções de mundo e identidades por meio das mídias digitais. Uma criança tem um entendimento de tempo-espaço muito diferente da de um adulto do século passado. Entender que uma das maneiras de construir a personalidade é pela interação de conteúdos e informações, e que a nossa maior fonte é as mídias digitais. Se um Big Data consegue usar os dados para influenciar uma eleição, até onde ele consegue influenciar a nossa construção como indivíduo?

Até onde viramos fruto de um direcionamento do Big Data?

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Foucault mostrou que o ser humano virou um indivíduo codificado, mas me parece que querem reduzir as pessoas a simples números binários. Afinal, assim fica mais fácil de vigiar e punir.

 

Fontes:

El Pais

Livro Vigiar e Punir

Folha de São Paulo