“Pai, afasta de mim esse cálice”, foi o que cantou Chico Buarque na música Cálice, que ele e Gilberto Gil escreveram em 1973. O cálice, na verdade, era o cale-se causado pela ditadura militar. Este período foi de extrema censura quanto a arte e os veículos de comunicação. Nada que fosse contrário ao regime poderia ser levado a público naquela época.

Será então que hoje, 33 anos após o fim da ditadura, vivemos a liberdade de expressão? A campanha  “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão”,  aponta que em um ano foram registradas 70 casos de violações a liberdade de expressão no Brasil.  Essa liberdade é uma condição indispensável que garante a democracia, sendo assim, é um direito humano indispensável, como defende a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

Três semanas atrás aconteceu o II Encontro de Graffiti de Maringá e algumas horas depois de ter terminado o evento, o graffiti de Paulo Ito foi apagado.

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Obra que foi apagada – Maringá Post

As opiniões ficaram divididas entre as pessoas que souberam do ocorrido, umas aprovaram, outras não. Em nota, Paulo Ito pronunciou-se sobre o acontecimento:

“[…] Dentro da complexidade que existe na lei e nas artes entendo que a o trabalho não é e nunca teve a intenção de ser propaganda ou contra propaganda eleitoral se isentando da lei 37-9504 de 1997. Na verdade a intenção da arte do painel nunca visou atacar diretamente o presidenciável e sim criticar seu eleitor que muito comumente se utiliza do bordão que grafei na obra “melhor Jair se acostumando” como único “argumento” frente à questões debatidas na internet. […] Para finalizar deve-se esclarecer a população que a arte de rua bem como a arte de um modo geral não obrigatoriamente deve ter o intuito de ser unicamente esteticamente agradável, podendo sim causar incômodo, perplexidade e ou gerar reflexão.”

Vale lembrar também que a ordem para que a obra fosse apagada foi dada pela Secretaria do Esporte e não da Cultura. Em nota, a Prefeitura de Maringá também se pronunciou:

” […] O grafite foi concluído por volta das 18 horas de domingo. Imediatamente a obra gerou polêmica, sendo coberta cerca de 3 horas depois por estar em desacordo com o artigo 37 da lei 9504/97, que diz: “(é vedada a propaganda eleitoral) nos bens cujo uso dependa de cessão ou permissão do poder público, ou que a ele pertençam (…)”. A frase contida no grafite, com críticas sociais, tinha cunho político-eleitoral que contrariava a legislação, justificando a decisão de cobri-la, conforme entendimento e recomendação da Procuradoria-Geral do Município.”

Sobre o artista:

Paulo Ito nasceu em São Paulo e tem 40 anos. Desde 2000 é Gafiteiro e tem vários trabalhos pelo mundo inteiro.  Em 2014 pintou um painel que se tornou o maior viral da copa do mundo da FIFA 2014 saindo em veículos de comunicação em mais de 20 países, alcançando milhões de pessoas por todo o mundo. Em 2016, depois de pintar uma empena em São Paulo para o projeto Salve o Tapajós do Greenpeace, expôs na Segunda Bienal internacional de Arte de Rua de Moscow. Veja um pouco do trabalho de Ito:

No II Encontro de Graffiti de Maringá, muitas pessoas defenderam a obra e se sensibilizaram com o que aconteceu.

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E você? Concorda ou discorda com o apagamento da obra?