O clipe de This is America está sendo comentado por um grande número de pessoas, seja em redes sociais ou jornais online, tudo isso em menos de dez dias. Ele  foi publicado no Youtube dia 5 de maio, e em 48 horas teve mais de 23 milhões de visualizações. A música foi cantada e interpretada pelo rapper Donald Glover, com pseudônimo Childish Gambino e dirigido por Hiro Murai. Alguns glorificam suas referências, outros até já o colocam como clipe do ano, o que é quase que inquestionável, prestando atenção no cuidado dos detalhes e na  composição da obra. O clipe agrega manifestações racistas, de certa forma esquecidas pela sociedade, principalmente norte americana, e que ainda existem mesmo que silenciadas.

Coloco aqui algumas dessas tão faladas referências.

 

  • A pose de Jim Crow

Logo no início já é evidenciada a semelhança, provavelmente intencional, da pose de Glover com o personagem Jim Crow. Crow foi um personagem interpretado por  Thomas D. Rice no século XIX. Rice era branco e pintava seu corpo para representar, nos Minstrel’s Show’s, de forma preconceituosa, os negros. Hoje o nome é colocado como forma depreciativa e dão nome as leis norte-americanas que promoveram a segregação racial nos Estados Unidos.

 

  • A futilidade dos jovens

 

Childish Gambino crítica também o fato dos jovens estarem tão distraídos com modas, como o trap, com seus passinhos e clipes de ostentação. A moda se espalha e faz tirar o foco da raiz do movimento do hiphop, onde está o rap, onde está o trap. O hiphop surgiu em meados de 1970, nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque. O movimento veio como uma forma de canalizar as dificuldades da comunidade, com dança, pintura, poesia e música. Será então que a essência está sendo esquecida?

No música Gucci Gang, o rapper Lil Pump diz:

“Gucci Gang, Gucci Gang, Gucci Gang (Gucci Gang)
Spend three racks on a new chain (yeah)
My bitch love do cocaine, ooh”

Traduzindo:

“Gangue da Gucci, Gangue da Gucci, Gangue da Gucci (Gangue da Gucci)
Gastei três mil em uma corrente nova (é)
Minha mina ama cheirar uma coca, uh”

Porém, Donald Glover vai contra a maré, usando a ironia:

“Look how I’m geekin’ out
I’m so fitted (I’m so fitted)
I’m on Gucci
I’m so pretty (yeah, yeah)
I’m gon’ get it (ayy, I’m gon’ get it)”

Em portugues:

“Olha como eu tô me drogando
Eu sou tão estiloso (tão estiloso)
Estou de Gucci
Eu sou tão bonito (é, é)
Eu vou conseguir (ei, vou conseguir)”

Fica perceptível então, caro leitor, que Glover chama a atenção para as reais raízes do movimento. Afinal, que direitos serão conquistados “passando a mão na cabeça” com música, dizendo que tudo vai ficar bem, que você será mais com sua roupa de marca e seus passinhos que estão na moda, como nos passinhos de dança de Juju On the Beat?

 

  • O massacre do Coral

Esse massacre aconteceu em Charleston e o autor foi Dylann Roof, um rapaz branco na faixa dos 20 anos. Ele matou, por motivo de ódio, nove pessoas em uma igreja afro-americana dos Estados Unidos em junho de 2015 e disse que não se arrepende.

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Estas são apenas algumas das inúmeras referências trazidas nesse clipe, cada qual tendo um valor em sua mensagem de extremo peso e importância, algumas ainda estão sendo estudadas e são inquietações de muitos, inclusive, a minha.

Quero frisar aqui, não somente as referências, mas também as mensagens por trás delas. Glover enfatiza, mesmo que não tão explicitamente, a  comunicação (principalmente na popular) como um completo ruído. As grandes mídias foram ensinadas a não usar elementos que distraíssem seu receptor da mensagem, mas não está ela agora fazendo o papel de ruído distraindo a população das essenciais informações a serem discutidas?

O vídeo clipe coloca como plano de fundo vários acontecimentos, como um rapaz se suicidando enquanto os jovens dançam. A cena é um espelho da realidade, onde a juventude não se manifesta mais para as grandes causas, nem enxergam os problemas a sua volta. Vivemos em uma crise de comunicação que se encaixa em uma frase que Dominique Wolton, especialista em Ciências da Comunicação, diz que somos “gigantes em matéria de informação , mas anões em matéria de ação”, nos distraímos, desfocamos, ou até mesmo, fugimos, das informações que “cutucam feridas” e precisam ir além da informação, exigindo ação. Um exemplo, é que se fala muito hoje em dia sobre depressão e suicídio. Sim, é de extrema importância essa discussão… Porém, que ações  temos tomado hoje em dia em relação a isso? Será que estamos mudando nossas atitudes  ou continuamos com os mesmos erros?

Deixo como desafio, que tomo para mim também, pesquisar outros olhares sobre as mídias, buscar novas fontes  que tenham outros assuntos e também nos empenharmos nas atitudes, que vem como grande resultado da comunicação.

Você já viu o vídeo? Vale muito a pena. Não perde tempo!