Débora Nardello quer transformar o mundo. E faz isso através da moda: ela é criadora da marca de roupas Lusco Fusco, o qual trabalha com moda sustentável e procura oferecer materiais que trabalham sem a produção excessiva de lixo, reutilizando retalhos que sobram de outras roupas e dando oportunidade de trabalho a centenas de pessoas. Confira a entrevista com a idealizadora:

COMUNICAUEM: De onde surgiu esse interesse de reciclar, diminuir o lixo, e consequentemente iniciar o projeto da marca de roupas?

Débora: A ideia de sustentabilidade e redução de lixo sempre esteve presente na minha vida: meus pais sempre separaram lixo para reciclagem, nós fazíamos compostagem em casa e eu sempre fui muito conectada com a natureza. Oficialmente decidi que gostaria de explorar essa área na moda quando fui trabalhar no Banco de Vestuário, uma instituição que recebe e direciona os resíduos na indústria têxtil. Foi lá que me deparei pela primeira vez com a quantidade IMENSA de retalhos, tecidos e aviamentos descartados pelas confecções e vi naquele desperdício muitas possibilidades. Eu enxergava naquele lixo muito potencial, tanto que nem podia chamar aquilo de lixo, porque para mim não era (e nunca será).

COMUNICAUEM: Como é o processo de produção das peças, adotando esse método de produção sustentável? O que muda em comparação às outras indústrias da moda?

Débora: E o trabalho na Lusco Fusco é feito com esses retalhos que sobram nas confecções, num processo bem diferente da indústria comum. Nas fábricas de roupas tradicionais, os estilistas criam a coleção, para depois mandarem fazer o material e confeccionar as roupas. Já na Lusco Fusco, primeiro a gente recebe os materiais para então decidir o que fazer com aquilo. Se nas confecções comuns pôde-se cortar 30/40 peças de uma vez só, já que os tecidos são empilhados e a quantidade de material previamente estabelecida, pra gente isso não funciona, já que as peças precisam ser cortadas uma a uma e em pequena quantidade, pois os retalhos tem tamanhos diferentes e quantidades limitadas.

De tantos segmentos possíveis na conscientização sobre o consumo sustentável, por quê escolher o ramo da moda?

Eu escolhi a moda porque ela sempre foi a minha maior paixão: falo, penso e respiro moda desde sempre, é muito natural. Meus olhos para a moda são da importância dela para nossas vidas, já que as roupas nos acompanham diariamente durante toda nossa vida, então pela proximidade conosco acredito ser uma indústria com grande potencial de transformação ambiental e social.

A Lusco Fusco, marca de roupas da Débora, utiliza retalhos advindos de outras peças para confecção de suas roupas (Divulgação/Lusco Fusco)

A Lusco Fusco, marca de roupas da Débora, utiliza retalhos advindos de outras peças para confecção de suas roupas (Divulgação/Lusco Fusco)

Você consegue levar o conceito e a proposta da sua marca para sua vida e para a vida pessoal da sua equipe? Como organizam suas rotinas e práticas de consumo?

Desde que eu comecei a trabalhar com moda ética fui conhecendo muitas vertentes do movimento de sustentabilidade como um todo. Acho que existem muitas formas de fazer uma moda mais sustentável e que não se trata somente de fazer roupas, mas de um movimento de transformação muito maior. Hoje sou vegetariana e vegana em transição, tenho armário-cápsula, escolho melhor os produtos que eu compro, busco apoiar movimentos locais, enfim, tudo mudou, não só pra mim, mas para as pessoas que convivem e trabalham comigo também.

O mercado da moda é algo que muitas vezes é tratado como um “mercado descartável”, principalmente por causa da necessidade de consumo atual, alta rotatividade, baixa duração dos produtos e constantes mudanças das tendências. Como você acha que isso pode ser mudado sem abrir mão do conforto e do estilo pessoal?

Na minha visão são as pessoas que têm o poder de mudar a nossa indústria de moda atual, questionando-se sobre o que elas realmente precisam e o que realmente querem vestir. O autoconhecimento faz com que a gente compre somente aquilo que faz sentido para nossas vidas, que tem a ver como nosso estilo pessoal. A moda não precisa ser “descartável” se as pessoas comprarem com mais cuidado só aquilo que precisam e amam, ao invés de comprar só porque está barato ou porque é modinha “e está todo mundo usando”. Também acredito ser importante escolher onde comprar: existem muitas marcas que fazem produtos mais duráveis, com mão de obra bem paga e valorizada, com trabalhos autorais, então esse olhar sobre como esse produto está sendo feito é essencial e um caminho muito importante para revolucionar essa nossa relação não só com a moda, mas com outras áreas da nossa vida.

Por fim, há outras mensagens que seu trabalho e seu blog querem passar ao público além do que tange o consumo sustentável?

A Lusco Fusco, tanto a marca, quanto o blog ou o podcast, está aí pra gente buscar uma nova forma de viver, mais consciente e autêntica. Faço moda porque para mim é através dela que muitas coisas podem mudar para melhor e com o blog e o podcast quero disseminar a ideia de que é possível uma outra forma de viver e que as pessoas entendam como são feitas suas roupas e sua relação com elas. Eu acredito de verdade em uma vida mais sustentável e a moda foi a porta de entrada que eu escolhi.luscofuscoFicou interessado no assunto? Então, não deixe de ver a entrevista com a Mariana de Luca sobre seu projeto Moda Limpa que permite o encontro de pessoas com propostas sustentáveis. Clique aqui para conferir!