Os alunos Adolpho Guiroto e Danielle Lopes realizaram algumas perguntas para a Professora Mestra Fernanda Amorim Accorsi partindo de sua experiência profissional e acadêmica e englobando alguns dos problemas e dos temas abordados em suas pesquisas.  Confira:

1. O que a levou a atuar na área da comunicação?

Prof.ª Fernanda: Desde a juventude, o ensino médio, finais do ensino fundamental. Gostava muito de apresentar trabalhos, programinhas, fazer rádio escola. Fiz um Teste vocacional e obviamente o teste deu pra comunicação. Gostava – e gosto – muito ainda de escrever para o jornalismo. No jornalismo eu achei que ia mudar o mundo. A gente tem muito essa ideia na faculdade – que o jornalismo vai mudar o mundo através da denúncia. Durante a faculdade fiz estágios lindos em centros sociais, já fui meio que me ligando nesses aspectos mais sociais relacionados a educação, a formação escolar do sujeito. Quando eu entrei no jornal eu fiquei maravilhada, porque era tudo que eu queria, mas depois meio que foi se desconstruindo e eu percebi que as minhas denúncias já não eram mais denúncias. Eu estava fazendo o que as pessoas me pediam, me pautavam. Então, nesse sentido, eu optei fazer alguma coisa que de fato fosse alterar o mecanismo social. O que? Dar aula. Trabalhar como professora, trabalhar como pesquisadora. Talvez eu pudesse mexer um pouco nessa engrenagem das desigualdades culturais, das desigualdades sociais, então isso é um pouco o que me move. E a busca também pelo conhecimento.

2. O que você entende por multimeios?

Prof.ª Fernanda: São as leituras que eu tenho, Eu mesma construí o meu conceito. Pra mim multimeios é quando você permite, promove, incentiva o sujeito a ter gabarito, capacidade intelectual e emocional para transitar nos diversos meios. Não estamos falando só de tecnologia e meios eletrônicos, mas também dos tradicionais. Para mim Multimeios está diretamente relacionado à um modo de formação e para o meio em si.

3. No curso de Comunicação e Multimeios você ministra as disciplinas de Estágio supervisionado I, Relações Públicas, Comunicação e Criação em Meios Digitais e Técnicas e Tecnologias da Criação Verbal. Como está sendo a sua participação no curso?

Prof.ª Fernanda: É um desafio. Eu não sou formada em Comunicação e Multimeios. Então, antes de propor os pressupostos das disciplinas, sempre tento me colocar como uma pessoa formada na área e enviesando o mínimo possível para o jornalismo. Sei que não consigo me desvencilhar totalmente, mas esse é um dos meus maiores desafios. São disciplinas que eu não sabia muito sobre o que se tratavam até ler as ementas e pesquisar sobre. Por outro lado, como a matriz do curso permite a nós professores transitar entre as disciplinas e aprender muito para além de ensinar. Então é uma troca. Outro ponto que acho incrível aqui é a participação em projetos como o Observatório de Mídias, o SexCom e o Comunica, que são projetos com valor acadêmico imprescindível para formação de vocês e social. Além disso, algo que me move é o engajamento de alguns alunos e alunas em determinados temas e atividades que eu solicito. A gente passa a mesma atividade para uma turma inteira, mas geralmente algumas pessoas, e sempre as mesmas, realizam as atividades em um altíssimo nível. Claro que é uma questão de identificação com o professorado, com a disciplina e com a própria atividade.

4. A senhora foi coordenadora do curso de Jornalismo da Faculdade Metropolitana de Maringá. O que você percebe de semelhanças e diferenças no curso de Comunicação e Multimeios?

Prof.ª Fernanda: Semelhanças: A formação cidadã, voltada para a intervenção social e reflexão, não somente produção. Diferenças: O jornalismo é mais engessado. Tudo é voltado pra ele. Pretendo até sugerir à coordenação atual, acrescentar algumas disciplinas do curso de comunicação. O curso de jornalismo lá é muito novo, tem apenas 3 anos, então tem pouquíssimos projetos de ensino. Ao contrário de vocês que têm inúmeros.

5. Tendo experiência com estudos na área de Gêneros e Minorias Culturais, você procura abordar essas questões nas aulas? Qual a importância disso para a formação do comunicador?

Prof.ª Fernanda: Mil vezes sim. É imprescindível. Temos visto que os principais exames, tanto ENEM quanto vestibulares, têm abordado essas questões. É um tema emergente. É como se eu estivesse fazendo um enfrentamento pedagógico e político contra a homofobia, a lesbofobia a misoginia e toda forma de preconceito, inclusive às raças e etnias. Inserir questões de gêneros e dessas minorias em sala de aula é o meu papel não só como professora mas também como cidadã. Encorajo os meus alunos e alunas a fazerem enfrentamentos contra isso, além de tomar cuidado com determinados termos e vieses.

6. Você se identifica como uma mulher feminista. Essa identificação veio antes ou após esse contato com estudos de gênero?

Prof.ª Fernanda: Acho que muito antes. Quando eu era criança a minha Barbie não tinha nem marido nem filho. Ao ser questionada em relação à isso, eu respondi que ela tinha opção, ela podia escolher. Penso que talvez sejam as referências da minha família. Nossas referências vão nos conduzindo. Mas no mestrado eu tive acesso à muita literatura sobre, então passei a dar nomes, mas já vinha de muito antes.

7. Muitos de seus trabalhos abordam o Jornal na sala de aula, que é a prática pedagógica com jornal impresso na escola do século XXI – formar leitores críticos, levantar discussões culturais e sociais na sala de aula. Como professora, você acha que essa prática deveria ser mais recorrente?

Prof.ª Fernanda: Nós da Comunicação já fazemos isso de maneira geral. Mas, tanto jornal impresso quanto TV, filmes, são artefatos culturais que precisam estar na sala de aula. Penso que os meios de comunicação deveriam estar desde o ensino infantil na sala de aula, pois nem sempre os pais têm repertório cultural para trabalhar com esses meios com os filhos. Essa é uma premissa pensando no aspecto da cidadania e da leitura das mídias. Uma pesquisa recente mostrou que o brasileiro lê em média 1 livro a cada dois anos. Então os meios de comunicação devem, sim, estar na sala de aula.

8. Como a educação tem olhado para os meios? Tem dado a devida importância?

Prof.ª Fernanda: De modo algum, penso como comunicadora e professora que os meios de comunicação são subestimados pelos processos educativos e pelas pessoas que comandam esses processos. Por exemplo, a disciplina de Introdução à Educação e a Comunicação no curso de Pedagogia é semipresencial. Então existe, sim, uma desvalorização e estão também subestimando achando que é só entretenimento. Não é. É formação cultural da identidade do sujeito pela mídia.

9. Qual a importância do uso de diferentes plataformas midiáticas na didática?

Prof.ª Fernanda: É preciso despertar interesse e vontade pelo conhecimento. Oscilar entre uma plataforma e outra vai ser mais interessante pra minha turma. Para isso, a gente precisa de informação – o que é complicado, porque a gente não consegue acompanhar. Então, o quadro continua sendo importantíssimo, pois faz o aluno ler, copiar e ter guardado. Então não é só tecnologia.

10. Muitas pessoas acreditavam que com a convergência dos meios, as primeiras mídias, como o jornal impresso iriam desaparecer e seriam substituídas por novas plataformas. Mas podemos notar que o jornal impresso vem resistindo a isso. Quais adaptações a senhora percebe no jornalismo impresso que o mantém em circulação?

Prof.ª Fernanda: O jornal impresso ainda sobrevive porque uma geração inteira ainda faz questão de “sujar as mãos” com o jornal e ter um contato físico com ele. Além disso, o jornal impresso serve como documento, por exemplo, em licitações. A publicidade também ainda financia e ajuda a manter o jornal impresso. Na internet, a gente tem coberturas muito rápidas e enxutas em prol do público que quer isso. No jornal impresso, é um pouco mais literário e abrangente. Algumas pessoas buscam esse tipo de jornalismo e elas tem acesso por meio do impresso.

 
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