A Broadway é a maior referência de teatro musical profissional no mundo, sendo considerada a forma de dramaturgia mais lucrativa– os seus 40 teatros localizados no Theatre District, na ilha de Manhattan – gerando anualmente mais de um bilhão de dólares com a venda de ingressos para mais de 10 milhões de espectadores. A tradição vem desde o começo do século XIX, diretamente ligada ao projeto urbanístico de Nova York.

A fim de abordar o cenário internacional do teatro musicado, entramos em contato com a atriz, cantora e dançarina Lena Benítez, 31 anos, argentina de nascença e paraguaia de coração, a estudante de Belas-artes fez participações relevantes em musicais e conta ao Comunicauem um pouco de sua experiência na Broadway.

COMUNICA: Conte um pouco da sua história, Lena:

Moro atualmente em Fayetteville no estado americano da Carolina do Norte. Eu nasci na Argentina, mas minha família é do Paraguai. Eu comecei com aulas de dança quando eu era pequena, talvez daí venha minha paixão, minha obsessão cantando e atuando. Minha mãe é uma cantora incrível, meu pai é um dos melhores guitarristas da história de todos os tempos. Então é óbvio que eu tive muito apoio da minha família em prosseguir atuando e na carreira de cantora.

COMUNICA: Por que atuar em musicais? É um interesse específico?

A razão pela qual eu escolhi atuar em musicais é que eu pensava que era o jeito que poderia combinar minhas paixões. Então eu pensei, eu vou dominar as técnicas de canto, eu vou dominar a atuação, melhorar minha dança e então vou para Los Angeles e começarei a carreira de atriz e, em paralelo, a de cantora.

Quando eu tinha 14 anos e eu vim para os EUA, pesquisei sobre essas coisas e também aprendi inglês. Eu mergulhei nos estudos para conseguir pronunciar corretamente as palavras e conseguir ser a melhor atriz que eu pudesse ser.

COMUNICA: Como foi a preparação para trabalhar nesse campo de atuação?

Quando eu tinha 18 anos, comecei a preparar minha entrevista e meu pedido para entrar na faculdade, um bacharelado em Belas-artes e com ênfase em teatros musicais. Foi muito difícil, eu me esforcei muito, eu tinha muitas aulas de dança, de canto, composição, música clássica, aulas de teatro, entre outras. Na primeira vez, não entrei. Fiz mais aulas de dança e eu consegui entrar no ano seguinte  – e conquistei a bolsa de estudo. Em 2007, fui para a faculdade e aprendi muito sobre teatro musical. Eu conhecia sobre música, dança e atuação, mas tudo separado, não tinha o conhecimento do que significava realmente o teatro musical e como funcionava até eu estar lá e obviamente eu me apaixonei. Mas, por ser uma atuação de teatro, precisa ser mais gritante, atuar mais alto sem parecer um locutor, precisa ser natural como num filme ou televisão. Foi muito difícil para mim começar do zero e também meu conhecimento musical era espanhol. Eu falava inglês, mas a técnica musical em inglês é totalmente diferente. Foi um desafio, mas maravilhoso e recompensador.

COMUNICA: Como ocorreu o primeiro contato com o teatro da Broadway?

Um grande contato que tive com a Broadway – e que mudou a minha vida para melhor – foi a quantidade de workshops que a universidade Brigham Young University (BYU) nos oferece com estrelas da Broadway, grandes nomes do teatro musical como Lea Salonga e Sutton Foster, que vieram a nossa escola para nos ensinar. Eu fui tão privilegiada de ter aprendido com essas estrelas… Eu também assisti a musicais em Nova Iorque e tenho incontáveis amigos na Broadway agora.

COMUNICA: Quais musicais você já atuou lá? E qual deles foi o mais marcante? Por quê?

O musical chamado “Shelter”, que era sobre uma bela mulher e eu interpretei uma garota latina quebrada, foi sensacional. Minha estreia foi muito importante, porque foi um musical chamado “Zorro”, que é uma adaptação de “Zorro, o filme”. E depois disso, eu fiz uma pausa dos projetos porque eu fiquei grávida. Tenho três lindos meninos agora, um de quatro anos, um de dois e um de seis meses. Então eu tive que tirar um tempo, mas eu nunca parei de fazer alguma coisa aqui e ali. Agora eu estou me recuperando da última gravidez, mas nós montamos um estúdio em casa e eu faço locução para vários clientes ao redor do mundo.

COMUNICA: Como é ser uma atriz em um país estrangeiro?

É uma carreira muito difícil, é definitivamente para pessoas que estão 100% apaixonadas por isso e 100% determinadas e talentosas. Se você não é uma “ameaça tripla”, se você pensar “eu consigo cantar mais ou menos, eu só preciso aprender a atuar e a dançar que me tornarei uma estrela da Broadway”, então não! Não perca seu tempo! Porque a competição lá fora, a quantidade de talentos que são dançarinos talentosos que se tornam maravilhosos atores, bem fundamentados e verdadeiros, e depois eles também se tornam os melhores cantores… isso é esmagador. Eu sou uma pessoa que acredita em estudar para conseguir aquilo que ninguém mais consegue fazer, que nada é impossível e se você quiser algo, vá e lute por aquilo. Mas, ao mesmo tempo, você também tem que ser realista. Porque você terá que aprender vários tipos de dança, vários tipos de canto, e você terá que aprender inúmeros estilos de atuação e sotaques.

COMUNICA: Quais são as etapas de preparação de uma atriz durante a produção de um musical?

Parte do trabalho como atriz é fazer audição, e no campo da atuação em teatro musical, você faz audição atrás de audição. Então você tem que estar acostumado a entrar por uma porta e ter três pessoas te assistindo e te avaliando. Você precisa entregar a música e estar preparado, atingir todas as notas altas e baixas, acertar o tempo perfeitamente e depois dançar uma pequena combinação de pulos, giros e diferentes movimentos que você precisa decorar e que eles vão te mostrar duas vezes. Talvez três vezes, no máximo. Você precisa memorizá-los e não pode errar. Se você for muito bem, você recebe uma ligação de retorno. O que significa o segundo “round” da lista final. Se você não tem certeza sobre você mesmo, se você não souber aceitar feedbacks e críticas e usá-las sem deixar que elas te coloquem para baixo, você nunca sobreviverá neste negócio. Então não é apenas sobre talento e diferentes habilidades, mas também sobre a habilidade de se expor e estar vulnerável, ter pessoas olhando para você dia e noite.

COMUNICA: E os ensaios?

Quanto ao processo de ensaios, não existe dias em que você está doente ou qualquer coisa parecida. E você precisa ter suas falas totalmente memorizadas antes dos ensaios. Eu sei que em nossos países, na América do Sul, nós costumamos memorizar as falas enquanto atuamos. Mas aqui você tem que estar com tudo memorizado antes de ir aos ensaios. Porque os ensaios serão apenas sobre a montagem de tudo, músicas com as danças e com a atuação e o enredo. Mas isso é uma das experiências mais recompensadoras do mundo.

COMUNICA: A sensação de se apresentar deve ser ótima.

A habilidade de performar na frente de tantas pessoas é tão bom. Você sente tanta adrenalina no palco, se conecta as pessoas em tantos níveis que você sente muitas emoções, todas as noites. Você faz as pessoas rirem, você faz as pessoas chorarem. Você conta histórias e é capaz de ser o intermédio para aquelas histórias serem contadas. É algo tão bonito! É recompensador ver que o trabalho árduo vale a pena.

COMUNICA: E o cenário teatral musicado brasileiro? Em nível de oportunidades para atrizes e produção dos espetáculos?

Minha amiga Suellen e companheira de profissão voltará para o Brasil assim que se graduar, ao invés de ficar aqui. Ela diz que a cena do teatro musical no Brasil está crescendo muito rápido e que minha presença seria fundamental, logo eu terei trabalho, pois tem muito a ser feito por aí. Eu estou muito empolgada para ver o que o Brasil vai nos oferecer ao longo dos próximos anos no âmbito de teatro musical.

COMUNICA: Por fim, como você acha que o cenário musical brasileiro pode avançar?

O que eu posso dizer sobre os musicais do Brasil é que os brasileiros em geral são músicos naturais, eles dançam e cantam por natureza. Então é claro que vai avançar, só precisamos esperar alguns anos. Têm várias produções que estão sendo feitas, têm as adaptações e traduções, é com um passo de cada vez que se tornará muito grande.