O Projeto Desperte, que está realizando uma adaptação da famosa comédia musical da Broadway Hairspray, teve sua inauguração a partir da produção da peça O Despertar da Primavera, com acadêmicos de artes cênicas. Quando interrogados sobre o porquê do Hairspray ter sido escolhido para dar continuidade ao projeto, os assistentes Bruna Maris e Victor Lovato afirmaram que, em vista do tom pesado da última produção, procurava-se um musical divertido, animado e conhecido por um grande publico, mas que contivesse algum tipo de crítica social inserida. Por tal razão, Hairspray parecia se encaixar perfeitamente com os objetivos dos organizadores.

Bruna Maris, Victor Lovato e Leonardo Vinicius em ensaio.

Bruna Maris, Victor Lovato e Leonardo Vinicius em ensaio.

Produção

Para a produção da peça, a organização cobra uma mensalidade dos participantes para a contratação de professores de canto, dança e do espaço para ensaios e apresentações. A equipe que produz o Hairspray conta com 26 atores e atrizes, mais direção, coreografia, assistência e produção musical, os quais fazem parte Danielli Pasquini, Karenn Ticianel, Victor Lovato, Bruna Maris e Ariadine Gomes.

O elenco foi formado a partir do interesse pessoal daqueles que se dispuseram a realizar o curso. Quaisquer pessoas no desejo de realização da peça poderiam participar, mediante o pagamento da mensalidade. Os atores da peça ensaiam todos os finais de semana e passam as coreografias, falas e músicas juntamente com os professores de canto e dança.

 

Diferentemente da peça anterior, na montagem e realização do Hairspray eles não contam com assistência da universidade, e nem de patrocínios externos. As pessoas que participam do projeto como atores e dançarinos são as pessoas que custeiam o show.

 

Origem do Hairspray

Hairspray se originou de uma comédia musical de 1988, escrita e dirigida pelo cineasta John Waters. O elenco consistia em Divine, musa de Waters e estrela de muitos dos seus filmes, Sonny Bono, Ricki Lake, Debbie Harry, Jerry Stiller, Leslie Ann Powers, Colleen Fitzpatrick e Michael St. Gerard.

Posteriormente a versão de Waters, Hairspray estreou nos palcos da Broadway em 2002, contando com letra e música originais de Marc Shaiman e Scott Wittman. O musical foi ganhador de oito prêmios Tony, maior prêmio do teatro dos Estados Unidos, dentre eles o de Melhor Musical e teve seu encerramento em 2009 depois de mais de 2.500 apresentações. O musical também teve um versão no Brasil dirigida pelo Miguel Falabella e estrelado por Edson Celulari, Arlete Salles, Danielle Winits, Jonatas Faro e Simone Gutierrez.

Hairspray em suas mais famosas versões.

Hairspray em suas mais famosas versões.

Organização do elenco 

Ao ser questionado a respeito da organização geral do projeto e de como é feita a locação de cada participante em determinada área, Victor Lovato afirma que “a ideia é todo mundo participar de tudo”, “todo mundo em algum ponto dança, todo mundo em algum ponto canta, todo mundo em algum ponto atua.”

Não foi exigido nenhum tipo de formação em Artes Cênicas, habilidades com canto ou dança para a seleção. A ideia do curso para a montagem do Hairspray foi fazer uma mistura entre alunos de Artes Cênicas e pessoas interessadas em participar do projeto cantando e dançando, tendo inclusive alunos que estão no Ensino Médio ainda. Não houveram critérios que impedissem uma pessoa de participar do curso, pois eles buscavam formar um grupo que estivesse interessado em fazer o projeto correr da melhor maneira possível.

O objetivo era introduzir a cultura dos teatros musicais também àqueles que não tinham familiaridade com o ramo, mas que ansiavam conhecer a respeito. Entretanto, nota-se que diversos membros da peça anterior – O despertar da primavera -, os quais eram acadêmicos de artes cênicas, retornaram ao projeto para atuar no Hairspray.

 

Enquanto O Despertar da Primavera foi produzido durante quatro anos para a organização completa do processo, Hairspray restringiu-se a uma produção de quatro meses. Embora haja uma certa corrida contra o tempo, a peça conta com o apoio de uma coreógrafa para o repasse de todas as danças, além do suporte de uma professora de canto e da direção. Isto torna a organização como um todo mais eficiente e rápida.

 

Histórico do musical no Brasil

O teatro musical no Brasil tem seu surgimento a partir do final do século XIX, sob forte influência das produções europeias, principalmente as francesas. Ao longo dos anos, serviu como força de protesto em momentos como o regime militar, período em que as produções culturais eram severamente censuradas, além de sua função de entretenimento, com centralidade no eixo Rio-São Paulo. Diversas produções sofriam inspiração estrangeira, as quais possibilitaram o crescimento da popularidade dos teatros musicais no Brasil.

O crescimento e desenvolvimento dos musicais, desde seu início até a maturação alcançada atualmente, possibilitou o surgimento de grupos teatrais pelo Brasil afora. Houve uma expansão para fora do eixo Rio-São Paulo, e grupos menores de teatro realizam inspirações e peças de própria autoria por todo o país. Um exemplo é o grupo Desperte.

Ensaio do projeto Desperte para a produção do Hairspray.

Ensaio do projeto Desperte para a produção do Hairspray.

Um dos atores da peça, Vanderlei Junior, acadêmico de artes cênicas, que interpreta Corny Collins, afirma que a adaptação do Hairspray por parte do projeto Desperte conta com uma espécie de bricolagem de diversas versões da peça, incluindo tanto o projeto original da Broadway, quanto adaptações como a feita pela Broadway do Brasil e tantas outras de grupos menores. As músicas foram reescritas e adaptadas pelos assistentes Bruna Maris e Victor Lovato. Houve também alterações tanto de coreografia como de roteiro. Buscava-se colocar “a cara do projeto Desperte” na produção do Hairspray.

Individualidades

As músicas da peça foram versionadas e adaptadas para não haver problemas com direitos autorais do musical original da Broadway. A produção buscou a aquisição dos direitos, mas eles são alugados por semana e, como Victor aponta, “se você colocar três apresentações cobrando cinco reais o ingresso, os direitos seriam entre 10 e 16 mil reais”. Apesar de ser adaptada para a produção em Maringá, o musical tem a mesmo enredo dos originais, se passando em Baltimore, EUA, nos anos 60, período auge da segregação racial.

 

O roteiro original da Broadway, o qual foi a versão de maior inspiração, contém algumas partes que poderiam causar problemas por abordar de forma pejorativa os negros da peça. Os organizadores decidiram retirar tais partes para não causar desconforto, visto que parte do elenco é formado por negros.

 

O espetáculo será apresentado nos dias 15 e 16 de Julho, no Teatro Regional Calil Haddad em Maringá. O custo da entrada será de 15 reais, com possibilidade de compra no Aéreo Fitness Estúdio de Dança, local onde ocorrem os ensaios do grupo.

 

Texto por: Suzana Frare e Heloisa Lima.