Ocorreu no dia 07 de Julho o último dia do VII Multicom, o Encontro de Comunicação e Multimeios, o qual contou com o tema “Resistir e Reinventar”, buscando refletir sobre o papel do(a) comunicador(a) enquanto sujeito político.

Pela manhã, ocorreram as oficinas, dentre elas sobre “Os Mitos e Verdades sobre Jornalismo de TV (Dicas Práticas de Sobrevivência na Rua e na Redação)”. A jornalista Brenda Caramaschi, da Rede Massa, contou suas experiências nas emissoras de TV pelas quais passou, a rotina, as verdades e mitos sobre a profissão do jornalista, e deu dicas na hora de entrevistar, de sair às ruas ou permanecer no estúdio, de comportamento, postura e visual. Em sua fala, reforçou a ideia de que a rotina é corrida e muitas vezes a profissão é idealizada, mas no final seu trabalho vale a pena, principalmente quando vê que sua reportagem e problemas apresentados tiveram solução e passaram a informação desejada. Acentuou também a importância da informação em primeiro lugar, mas com ética e bom senso, ao não revelar fontes de informações secretas ou gravar cenas fortes como acidentes, pessoas feridas, por exemplo.

A oficina "Mitos e Verdades sobre Jornalismo de TV" contou com a jornalista Brenda Caramaschi (Foto: Reprodução/Facebook Multicom)

A oficina “Mitos e Verdades sobre Jornalismo de TV” contou com a jornalista Brenda Caramaschi (Foto: Reprodução/Facebook Multicom)

No período da tarde, ocorreu o encerramento do evento, o qual contou primeiramente com a apresentação do grupo de dança Vision Crew, e em seguida com a palestra da Prof. Dra. Sônia Cristina Vermelho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), abordando o tema “Comunicação? Comunicar o quê… E para quem?”. A professora contou sobre sua experiência comunitária com a população da favela do Manguinhos e com a Escola Municipal CIEP JK (RJ), focando na formação de professores e envolvimento com as ciências, área que também pesquisa e tem interesse, bem como apresentou sua pesquisa relacionada a linguagem, questões sociais e identidade envolvendo essas comunidades.

O Comunica UEM bateu um papo com a Prof. Dra. sobre o evento, sua área de atuação e a palestra ministrada, confira:

COMUNICA UEM: O tema do Multicom deste ano é “Resistir e Reinventar”, escolhido principalmente devido a situação política atual. Como você acha que as pessoas podem agir a partir dessas duas palavras?

Sônia: Eu acho que o tema foi muito positivo, eu adorei quando eu li quando era “Reinventar e Resistir”, porque, na verdade, quando a gente fala de atuar dentro de uma pesquisa teórica e metodológica da pesquisação, da pesquisa participante trabalhando com as teorias críticas, é o tempo inteiro resistir e se reinventar. Então, eu acho que assim, a gente sempre tá questionando as verdades. A gente tá sempre questionando e problematizando aquilo que é dado como certo, como a verdade, como o que deve ser pedido. Então por exemplo, nós estamos vivendo num momento político aqui no país e eu acho que a UEM, as universidades estaduais, elas estão sendo massacradas por uma política que, no final das contas, não tá priorizando e não tá pensando no social, ele tá pensando estritamente no econômico. As universidades, elas têm uma função social fundamental, se a gente tá pensando numa sociedade para o ser humano, e não numa sociedade que usa o ser humano. Então, eu acho que é fundamental se resistir a essa política, de destruição das universidades públicas, essa política de desmotivação dos jovens para seguir uma carreira, para buscar pensar em como ele pode contribuir para a sociedade e sim, eu acho que é um movimento que a juventude hoje tem que se colocar o tempo inteiro contra uma lógica, contra essa ideia de que o público é ruim. O público não é ruim, pelo contrário, o privado é que é o problema.

COMUNICA UEM: Você veio da UFRJ, do Rio de Janeiro, especialmente para esse evento. O que te levou a ter interesse a dar essa palestra, a transmitir seus conhecimentos para nós?

Sônia: Bom, tem uma questão que é muito particular, que eu já morei aqui em Maringá, e é uma cidade que eu gostei muito de morar. Eu morei aqui durante quatro anos e acabei fazendo amizades aqui. O convite, quando veio de eu vir pra cá, pra poder contribuir, pra mim foi um enorme prazer poder voltar pra Maringá e conversar, pra transmitir um pouco daquilo que eu tô vivendo, daquilo que eu tô aprendendo, daquilo que eu tô fazendo. Então acho que teve uma motivação mesmo de vim com um gás, de poder voltar aqui pra Maringá e trabalhar aqui com vocês.

Além dos estudos sobre Mídia-Educação, você também pesquisa sobre a área da Ciências e Saúde. Esses assuntos, apesar de distintos, podem ser relacionados de alguma forma?

Sim. A questão da educação em ciências é um campo de pesquisa de atuação que procura problematizar a forma como a escola, a educação transmite o conhecimento científico. Toda escola, ela transmite algum tipo de conhecimento, e não é qualquer conhecimento, é um conhecimento sistematizado, que a gente chama de conhecimento científico. Então o campo da educação em ciências, ele problematiza a escola como transmissora desse conhecimento dito científico, que por sua vez, tem uma ideia de que ele é O conhecimento verdadeiro. Então o campo da educação em ciências, não todo, mas pelo menos boa parte dele problematiza O conhecimento que a escola transmite, porque a ciência mesmo, enquanto campo de produção do conhecimento, ela tem plena clareza, qualquer cientista das áreas duras, da Física, da Química, ou mesmo das Ciências Sociais, ele sabe que o conhecimento produzido até agora e o que ele produz, ele não é finalista. A ciência está em permanente processo de construção, e muitas vezes até de negação de conhecimento que num determinado momento foi verdadeiro, hoje não é mais.

No entanto, a escola ensina esses conhecimentos como se eles fossem verdade, então o campo da educação em ciências problematiza e questiona a escola como transmissora de um conhecimento supostamente verdadeiro. A relação disso com a mídia, quando você pega a forma como a mídia lida com, por exemplo, a informação, ela transmite uma informação como se fosse a única verdade sobre determinado fato. Então a lógica que a escola utiliza em relação ao conhecimento verdadeiro, a mídia utiliza em relação a informação que ela veicula: aquilo é a verdade.

A Prof. Dra. Sônia Cristina Vermelho ministrou a palestra sobre Comunicação Comunitária (foto: Mariana Celini)

A Prof. Dra. Sônia Cristina Vermelho ministrou a palestra sobre Comunicação Comunitária (foto: Mariana Celini)

Muitos alunos do segundo ano têm aulas de Comunicação Comunitária e alguns trabalharão com oficinas para crianças e adolescentes. Você falou da dificuldade de engajamento das pessoas nesses projetos para a comunidade. Como isso pode ser mudado, baseado nas suas pesquisas e experiências?

Isso é uma questão bastante complexa. Eu acho que não teria uma fórmula pronta pra dizer “Olha, faça isso, aquilo, aquilo outro”. Eu acho que tem mais o que não seria mais recomendável fazer: sair de dentro na universidade achando que tem… Por mais que a gente tenhas as boas intenções, e a gente obviamente tem boas intenções, mas o que a gente quer é o melhor para o outro. Então acho que esse é a primeira questão que a gente tem que problematizar nesses projetos sociais. Não necessariamente que a gente acha que é bom, é bom para o outro. Pode ser que o que é planejado como atividade para o outro não é o que o outro quer. Então eu diria que a primeira orientação que eu diria, que eu faria é: primeira vai pra lá, pro lugar. O lugar é que talvez te diga o que é mais importante, o que é significativo, porque o que é significativo pra gente, enquanto estudantes de graduação de uma universidade não necessariamente é significante para quem está em outro espaço, por exemplo, nessas comunidades que são chamadas de comunidades vulneráveis.

Então acho que a primeira coisa é escutar ou tentar perceber, fazer um trabalho de diálogo, de acordo, tentar identificar o que é significativo e relevante pra eles, pra que a gente possa entender qual é a nossa contribuição, que pode ser muito grande como pode não ser. Mas a gente não tem a verdade, nem eles têm a verdade, mas a verdade também não tá com a gente.

Conhecer a realidade do outro para saber o que pode ser melhorado a partir dela.

Exatamente. Somente quando você se abre para o outro é que você tem a escuta. Se a gente vai para esses lugares achando que estamos indo fazer o melhor, a gente não olha pr’aquele lugar porque a gente já vai com um olhar pronto, com um olhar pré formatado, e a gente perde a possibilidade de ver determinadas riquezas que tem esse lugar.

Minha experiência ali na comunidade, na favela de Manguinhos, me fez perceber isso: por melhor que tenha sido a minha intenção, ao resolver o trabalho de pesquisa participante lá, ela era uma boa intenção pra mim, mas não era pra eles. Eu não conseguia fazer pois pra eles não tinha o menor sentido, o menor significado. Eu não consegui o envolvimento, nem de alunos, nem de professores. Enquanto eu não parei com essa forma de agir e passei a olhar aquele lugar e a olhar aquelas pessoas, dialogar e tentar entender o que era significativo para elas, o meu trabalho ali não teve nenhum sucesso, foi frustração do início ao fim. Quando eu mudei essa lógica é que as coisas começaram a ter uma outra dinâmica. E isso não pode ser só teórico, porque tem muitos teóricos que dizem pra fazer isso, mas entre a teoria e a prática tem uma distância muito grande. Então você se colocar no lugar é você abrir mão de suas verdades, abrir mão daquilo que você acha que é o melhor para o outro.

O que mudou na sua vida depois que se engajou com essas comunidades e a trabalhar com as pessoas que moram lá?

Olha, pra mim mudou muito. Primeiro porque eu acho que a sociedade e principalmente a mídia cria um estereótipo e a gente passa a lidar e a se relacionar no mundo a partir desses estereótipos. Então, por exemplo, eu tinha uma ideia do que era um jovem favelado, e essa ideia de jovem favelado era de um sujeito incapaz, de um sujeito com grandes deficiências do ponto de vista cognitivo, do ponto de vista de conhecimento e assim, uma pessoa vulnerável, como essa imagem que é passada pra gente. Quando você começa a se deparar e ver que ele não é vulnerável e que ele é muito capaz, muito inteligente, criativo, às vezes bem criativo, diga-se de passagem, que aquelas pessoas têm um valor enorme e é como se lançasse todo uma construção discursiva sobre o que são aquelas pessoas que moram nas comunidades ditas vulneráveis.

Pra mim foi o desmontar toda uma ideia, toda uma lógica em torno desse disfarce. E a gente vive muito preso a essas ideias até pra poder se comparar em relação a eles. “Eu não sou um”. Essa ideia é muito falsa de “Eu não sou uma favelada”. Isso me coloca numa condição social melhor do que a dele. Não é essa que é a lógica? As pessoas dizem “Mas eu não sou pobre”, então não ser pobre e favelado me coloca numa situação melhor do que a dele. Isso não é uma verdade pois aquele jovens que estão lá são muito mais felizes que muitos jovens que estão dentro da universidade, que hoje estão tomando remédio pra poder dar conta da vida dentro da universidade, que estão sofrendo pressões, bullying, uma série de coisas dentro na universidade que não vejo nesses jovens que estão nas comunidades.

Então é por isso que falo que pra desmontar essas verdades é porque têm ideias fixas em relação à esses sujeitos, quem está integrado na sociedade e quem não está, a quem é marginal e quem não é: são ideias fixas que, no momento em que você pensa em tirar esses estereótipos e se relacionar efetivamente com essas pessoas, você vê que não é nada disso, é uma outra coisa, um outro universo e que a gente tem uma dificuldade enorme de compreender.

Foto de capa: Filipe Santos.