Está acontecendo desde ontem (05) na Universidade Estadual de Maringá, o VII MULTICOM – Resistir e Reinventar, evento organizado pelo curso de Comunicação e Multimeios, que busca refletir nessa sétima edição sobre o papel do/a comunicador/a enquanto sujeito político.

Hoje, 06 de julho, aconteceu pela manhã uma palestra com a professora doutora Mônica Panis Kaseker acerca da convergência midiática e as transformações na produção e circulação de imagens. Kaseker é graduada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com especialização em Planejamento e Gestão de Qualidade em Comunicação, mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná. Atua como professora de Rádio, integra o Núcleo Docente Estruturante do Curso de Comunicação Social – Jornalismo, e é membro do Núcleo de Excelência Pedagógica e do Conselho Acadêmico da Escola de Comunicação e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. É editora-chefe da Revista de Estudos da Comunicação e participa do Conselho Editorial da Editora Champagnat. É líder do Grupo de Estudos Comunicacionais da PUCPR.

Conversamos com a professora, que atualmente desenvolve pesquisas sobre os processos de apropriação midiática, a respeito de suas pesquisas e da palestra ministrada. Confira:

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(Foto: Facebook pessoal)

COMUNICAUEM: Algumas de suas pesquisas, dentre elas a tese apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Sociologia, são acerca dos hábitos de apropriação radiofônica no cotidiano familiar. De onde surgiu o seu interesse em pesquisar esse assunto e quais foram os resultados obtidos?

Mônica: Meu interesse se deu porque eu era professora de Jornalismo e no mestrado eu havia pesquisado os radialistas políticos e seus impactos sociais e, nessa pesquisa, me chamou muito a atenção o comportamento dos ouvintes, que, diferente da maneira que o senso comum pensa, não eram receptores alienados, e a relação próxima que eles tinham com aqueles comunicadores. Percebi que haviam laços afetivos e uma significação muito grande no dia a dia desses ouvintes. Assim, tive muita curiosidade em pesquisar esse universo dos ouvintes de Rádio e, seguindo a linha dos estudos culturais, realizei uma pesquisa com meus alunos de Jornalismo observando o cotidiano de seus familiares quanto aos hábitos radiofônicos. Descobri que vários hábitos se passavam de geração a geração e a paixão pelo Rádio influenciava todo campo cultural familiar. Muitas transformações ocorreram, mas esse meio de comunicação ainda se dá hoje, dentre outras coisas, pelo fator familiar.

COMUNICAUEM: As mudanças nas rotinas produtivas do Jornalismo em um contexto de mobilidade e convergência midiática, também foram pauta de seu campo de pesquisa. De onde veio o interesse em analisar esse assunto?

Mônica: Isso me interessa pela própria realidade que enfrentamos nas universidades e pelo temor que os nossos estudantes têm de se formar e não conseguir um emprego nessa área. No entanto, percebi que nós temos certas amarras, tantos os estudantes, quanto a própria universidade. Possuímos uma angústia em relação ao fim dos jornais impressos, as dificuldades econômicas das redes de televisão, e as ameaças do mercado de trabalho. Porém, isso me fez pensar: “Temos nos comunicado mais e a comunicação tem sido cada vez menos importante? Será que é isso mesmo?”. Então, isso me moveu a essa pesquisa e constatei o seguinte: os novos espaços estão aí, nós que não conseguimos enxergar.

COMUNICAUEM: Temos ouvido muito falar que “O Jornalismo está em crise”. Na sua perspectiva, essa afirmação é verdadeira?

Mônica: O Convencional sim, com certeza. Por isso é preciso procurarmos novas formas de se fazer Jornalismo, e já temos alguns exemplos. No entanto, eu não gosto desse discurso negativo de que o Jornalismo está acabando. Precisamos de novos espaços e aprender a conviver com outros meios.

COMUNICAUEM: Qual o papel do profissional formado em Comunicação nesse contexto brasileiro de polarização política?

Mônica: O seu principal papel, antes de tudo, é superar seus próprios pré-conceitos, e assim conseguir dar voz ao outro. Depois disso, tendo em vista a polarização política, nós precisamos criar laços e promover canais de diálogo. Acredito que é o profissional de Comunicação que deva fazer isso, não outras pessoas. Isso é o fundamental: criar condições para o diálogo.

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Foto: MultiCom VII

COMUNICAUEM: A convergência midiática é um fenômeno que está presente no momento atual. Do que se trata esse fenômeno e qual seu impacto no campo social?

Mônica: A convergência é justamente um caminho que parte de diversos pontos para um ambiente onde, cada vez mais, as diferenças entre diferentes veículos não vão ser definidoras do que está sendo feito.  Seu impacto é positivo e negativo. Positivo, pois abre grandes possibilidades comunicacionais. Negativo, por que muitos não conseguiram ainda se adaptar a esse novo hábito. Assim, precisamos explorar de forma mais completa as distintas possibilidades da convergência midiática.

COMUNICAUEM: Quais os desafios enfrentados pelos comunicadores no novo modo de se comunicar, tendo em vista a convergência e as infinitas possibilidades de transmitir conteúdos?

Mônica: Os desafios são, não só dos comunicadores, mas de diversos pontos. Dos comunicadores, principalmente, o maior desafio é a nova maneira comunicacional que exige novos olhares e uma capacidade de se adequar ao multimidiático. Do ponto de vista empresarial, precisamos procurar novas formas de financiar as produções. No tecnológico, precisaremos nos adaptar as novas demandas. No campo profissional, as rotinas de trabalho estão se modificando todos os dias. Também são encontrados desafios sociais e culturais, mas vamos encarar esse novo tempo.

COMUNICAUEM: Como resistir as amarras fixas da tradição em certas maneiras de se fazer comunicação e como reinventar a apresentação do conteúdo para se adequar no aspecto convergente?

Mônica: Em suma, precisamos aprender com o público. Se colocar no lugar dele faz nós nos soltarmos dessas amarras, porque veremos coisas novas que podemos e conseguirmos realizar. Com o olhar do público, vamos reinventar certas coisas e recriar conceitos.

COMUNICAUEM: Qual a importância de estudar as múltiplas áreas do campo da comunicação e estar ligado aos multimeios?

Mônica: É importante para romper os paradigmas. Comunicação e Multimeios é o curso mais indicado por ter produções que extrapolam os limites da restrição de linguagem e consumo. É uma área que requer muita criatividade e a abertura do nosso olhar para o que pode ser feito e as possibilidades que podemos explorar.

COMUNICAUEM: O Comunica UEM é um projeto experimental do curso de Comunicação e Multimeios e a convergência se faz presente em suas produções pois os alunos se envolvem em produções diversas e multimidiáticas. O que você acha da existência de projetos como esses nos cursos de Comunicação?

Mônica: Acredito que seja fundamental e era preciso estar presente em todos os cursos. Digo isso porque, por exemplo, em um curso de Jornalismo não dá para pensar mais numa redação que não seja convergente. É preciso construir um profissional sem estar preso a linguagens e formatos pré-definidos. É preciso criar, a partir do objeto, uma produção. Esse é um bom caminho.

Autor: Giovanni Bruno de Oliveira.