Fazer arte não se restringe simplesmente a algo como fotografia, audiovisual e música. Ela também pode ser observada em forma de texto verbal. E é na escrita que muitas pessoas encontram uma forma de tirarem o peso de um dia difícil ou mostram como estão de bem consigo e com o universo, inspirando, muitas vezes, outras pessoas.

     E é isso que faz Gabriel Veiga na página do Facebook Poetizando e Andréia Flores na página Quarentena e os outros dias. Em entrevista para o ComunicaUEM, os autores falam o quão importante é escrever e fazer arte com palavras. Confira abaixo.

     Gabriel Veiga criou o Poetizando em meados de outubro de 2016, e porque no início tinha vergonha escolheu o Facebook para a publicação de seus textos, pois a plataforma permite um certo anonimato. Nas palavras dele, anonimato esse que foi uma premissa na construção do projeto de poesia. Hoje são mais de 120.200 curtidas e várias críticas positivas.

foto facebook Poetizando

     O que corroborou para Gabriel criar a página foi a mudança de cidade, já que ele era de Curitiba e se mudou para Bento Gonçalves em Serra Gaúcha. “Nesse período, eu estava completamente distante do mundo; estava numa cidade totalmente nova, onde não conhecia ninguém além da minha família. Estava sem ocupação, me sobrava tempo, minha cabeça estava extremamente confusa e meu coração estava partido. Escrever foi o remédio pra minha alma. Eu tirava os embaraços do coração e os jogava nas folhas de papel. Poesia foi sempre um refúgio pra mim.”

 

 

foto facebook Poetizando

foto facebook Poetizando

COMUNICAUEM: O que te motiva a escrever?

GABRIEL VEIGA: Depende do momento e depende da realidade. A função do poeta é transformar a realidade em arte. As vezes a realidade envolve saudade, amor, desejo, desilusão ou um cenário político. Ultimamente tenho me sentido mais à vontade no cenário político, mas a vida é sempre cíclica.

COMUNICAUEM:  Como você vê a reação do público?

GABRIEL VEIGA: O público que acompanha a página é participativo. Comentam sempre. Geralmente fazem isso marcando o “mozão”. Sempre que possível eu procuro ler todos os comentários, pra tentar estar mais perto de quem acompanha o que eu faço.

COMUNICAUEM: Você acha difícil pensar em ideias para os textos?

GABRIEL VEIGA: Não. Quando as ideias surgem, elas surgem com naturalidade – pelo menos pra mim. Não consigo simplesmente pensar num tema e fazer alguma coisa com ele. Já tentei, mas o resultado nunca foi bom. Na minha vida a poesia precisa ser percebida.

COMUNICAUEM: Com que frequência você escreve?

GABRIEL VEIGA: Como poeta sinto que minha vida é cíclica. Em determinados momentos eu consigo escrever muito, todos os dias, sobre vários temas. Em determinados momentos não. Ocasionalmente eu passo semanas sem escrever nada, porém as vezes escrevo várias coisas boas no mesmo dia. As poesias dependem necessariamente do que o peito tem pra dizer. As vezes o peito fica sem palavras também.

COMUNICAUEM: O que você espera atingir com seus textos?

GABRIEL VEIGA: A minha ideia inicial era mostrar a minha arte. Deu certo. Depois eu pensei que se uma pessoa só fosse tocada, o mundo já seria outro, afinal cada ser é um pequeno universo. Até agora tem dado certo. Meu próximo objetivo é a materialização da página em um livro.

COMUNICAUEM: Você sempre escreveu?

GABRIEL VEIGA: Eu comecei a escrever quando tinha doze anos. Eram músicas que compunha em parceria com um amigo na época do Fundamental e Médio. A maioria dessas músicas viraram em nada, mas me foram o início na arte de escrever. Posteriormente passei a escrever textos em prosa e contos, até chegar, enfim, nas poesias.

COMUNICAUEM: Como descobriu o amor pelas palavras?

GABRIEL VEIGA: Percebi que as palavras me encantavam quando li os versos de Pedro Gabriel, autor de Eu Me Chamo Antônio e senti os efeitos de uma boa poesia na alma. Depois tive contato com Paulo Leminski – e me apaixonei principalmente pelos haicais. Leminski é o meu poeta favorito.

COMUNICAUEM: O que sente enquanto escreve?

GABRIEL VEIGA: Depende da poesia, geralmente sinto saudade.

COMUNICAUEM: O que sente depois que escreve?

GABRIEL VEIGA: Sinto que um peso foi tirado de mim. A função do poeta é descarregar no papel a arte que a vida é.

COMUNICAUEM: Por que considera importante escrever?

GABRIEL VEIGA: Pra mim escrever é tocar a minha essência. É de alguma forma me conectar com o todo. A arte em si carrega essa característica; nos leva até nossa essência, seja escrevendo ou lendo.

Confira mais poemas:

foto facebook Poetizando

foto facebook Poetizando

Para seguir Gabriel Veiga é só acessar o link  

     Andréia Flores escreve para sua página no Facebook, Quarentena e os outros dias. Os textos da autora eram parte de seu diário, ela escrevia de maneira livre e algum dia alguém lhe disse que eram bons e que Andréia devia publica-los, assim ela fez. Hoje a página é curtida por mais de 39.700 pessoas e foi criada em apenas um mês. Antes de escrever para um livro a autora quis ver como o público reagia pelo Facebook.

COMUNICAUEM: O que te motiva a escrever?

ANDRÉIA FLORES: Sempre digo que a experiência de escrever serve para colocar para fora algum sentimento que está meio bagunçado por dentro, organizar direitinho, e vê-lo de fora, de maneira mais objetiva ou pelo menos mais poética.

COMUNICAUEM: Como você vê a reação do público?

ANDRÉIA FLORES: É a melhor parte. Ver algo que você escreveu tocar pessoas tão distantes de você, não tem sensação melhor. E quantas pessoas sentindo e vivendo coisas parecidas…

COMUNICAUEM: Você acha difícil pensar em ideias para os textos?

ANDRÉIA FLORES: A página é quase um diário, muitas questões reais, coisas que estou vivendo no momento e até mesmo conversas com alguns dos leitores. Quando sinto dificuldade, interajo com eles, e a ideia vem.

COMUNICAUEM: Com que frequência você escreve?

ANDRÉIA FLORES: Tento escrever diariamente e manter uma rotina, mas nem sempre consigo tal feito.

COMUNICAUEM: O que você espera atingir com seus textos?

ANDRÉIA FLORES: Espero me entender, espero ajudar outras pessoas a se entenderem e, quem sabe, ajudar alguém dessa forma.

COMUNICAUEM: Você sempre escreveu?

ANDRÉIA FLORES: Sim, sempre foi um hábito, desde muito cedo. Sempre gostei muito de ler, acredito que isso tenha contribuído muito para este hábito.

COMUNICAUEM: Como descobriu o amor pelas palavras?

ANDRÉIA FLORES: Em primeiro lugar lendo, mas a sensação de libertação cada vez que escrevo, é realmente apaixonante.

COMUNICAUEM: O que sente enquanto escreve?

ANDRÉIA FLORES: Enquanto escrevo tento me aproximar do sentimento que motivou o texto, às vezes a angustia, às vezes excitação, às vezes insegurança…quanto mais verdade coloco no texto, mais sinto a identificação do público.

COMUNICAUEM: O que sente depois que escreve?

ANDRÉIA FLORES: Uma sensação de libertação, de alívio…

COMUNICAUEM: Por que considera importante escrever?
ANDRÉIA FLORES: Porque o mundo já anda tão difícil, tão cheio de pressas que pode parar e olhar para dentro, pode fazer toda a diferença no dia de alguém.

Confira algumas produções de Andréia:

“Ele aparece. Ela sabe que a vida segue seu rumo e espiá-la pela janela não lhe parece uma boa opção. Ele chega. Ela está pronta para todas as surpresas que a noite trouxer. Ele toca. Ela sente a música, o gosto, o corpo. Ele fica. Ela sabe que a viagem será pela superfície, por suas curvas e que seu mundo não será explorado. Ele vai. Ela sabe que o caminho teria valido a pena, aprendeu a ser uma boa companheira de viagem. São histórias que se repetem, com os dois já cansados de nunca encontrar o que procuram, mas será que eles sabem o que procuram?”

Queria ter o dom de encontrar a palavra que te tocasse, aquela capaz de te arrancar lágrimas, algo humano, puro, real. Queria te descer desse lugar ai em cima onde te coloquei, olhar nos teus olhos e te arrancar beijos, suspiros e suor. Queria te deixar cansado e nesse momento ser apenas colo, paz e abraço. Queria te dizer que estou do seu lado e segurar tua mão, nos dias bons, ruins, de chuva, sol ou neve. Queria você e queria que você me quisesse também, mas dá para ouvir daqui o teu medo do meu sentir. A culpa é minha, sou assustadoramente intensa e essa é minha melhor parte. Tiro você deste teu lugar arrumadinho e te trago para um mundo deliciosamente perigoso, cheio de curvas e poesia. Aqui tem dor, tem amor, tem uma vida que pulsa, aqui é úmido, quente. Enquanto você preferir o morno, estaremos em mundo distantes. Ei?! Prometo não te queimar.”

“Será que quando olharmos para trás, lá num futuro distante, guardaremos uma lembrança boa de nós? Será que ficará algum resquício de afeto ou frustração e arrependimento irão prevalecer? Quando nos encontrarmos algum dia, num desses esbarrões do acaso, você me olhará e verá o que? A mulher que poderia ter mudado o seu destino ou mais alguém que entrou e saiu da sua vida, sem deixar grandes marcas, fazer história, sem ter te ensinado algo. Marcas? Você terá alguma? Talvez aquela lesão mal curada que doi nos dias de frio ou uma cicatriz bem pequena que nem lembramos de onde ela surgiu. Talvez nem isso. Seu olhar será de constrangimento? De saudade? De arrependimento? Não sei, não tenho como saber, acredito que nem você saiba. Eu sei dizer sobre o que você verá: A melhor versão de mim, que só se fez assim, depois de um desses esbarrões certeiros do destino, depois de você.”

Confira mais produções da autora pelo link

O ComunicaUEM agradece os entrevistados e esperamos incentivar mais a leitura e a confecção de arte em forma de textos.

Foto de capa de PRRINT