Você já deve ter ouvido falar, ou mesmo ter falado, expressões como “Ih, aquele ali é preguiçoso”, “Ele é antissocial” ou “É frescura” quando pessoas se referem a alguém que diz ter alguma doença psicológica, como a depressão, a anorexia, a bipolaridade, a esquizofrenia, a depressão pós-parto, o transtorno de Bordeline e muitas outras. O fato é que essas dificuldades são realmente patológicas, mas muitas vezes encaradas como “um denguinho”. As causas dessas “doenças invisíveis” são diversas, assim como os lugares em que ocorrem e as idades que atingem, o que faz com que toda a humanidade esteja vulnerável a ter uma enfermidade psicológica.

A depressão, por exemplo, atinge cerca de 7% da população mundial – dado apontado pelo seminário “The Global of Depression” (A crise global da depressão). Segundo Koki Annan, ex-secretário geral das Nações Unidas, em 2010 os custos diretos e indiretos da depressão eram de aproximadamente US$ 800 bilhões em todo o mundo. De acordo com Annan, a previsão é que esse custo deve dobrar nos próximos 20 anos.

Em pesquisa encomendada pelo laboratório Eurofarma, o Datafolha apontou que mais da metade dos que sofrem de depressão têm familiares com a mesma doença, o que faz dela, muitas vezes, uma condição familiar.

Em entrevistas com moradores da cidade de São Paulo, o Datafolha evidenciou que os problemas de saúde que existem na família ou com o próprio indivíduo são um dos principais fatores para o desenvolvimento da depressão.

Dados do IBGE 2015 apontam que os três estados sulistas são os campeões em depressão no Brasil. Com o Rio Grande do Sul em primeiro lugar, com 13,2% da população diagnosticada com depressão, seguida por Santa Catarina, com 12,9%, e o Paraná, com 11,7%.

Assim como outras doenças psicológicas, a depressão é responsável por grande número de mortes no país e no mundo. Em 16 anos, de 1998 até 2014, o número de mortes relacionadas à depressão no Brasil cresceu 705% – levantamento feito pelo Estadão em 2014. Nessa estatística, estão inclusos os casos de suicídio e de outras mortes decorrentes da doença.

Ainda sobre dados apontados pelo Estadão, no Brasil a faixa etária correspondente à terceira idade é a que reúne as estatísticas mais preocupantes. No caso de mortes relacionadas à depressão, os maiores índices estão concentrados em pessoas com mais de 60 anos, com o ápice depois dos 80 anos. Os óbitos relacionados ao suicídio também encontram espaço na terceira idade, embora a prevalência esteja na faixa etária dos 18 aos 27 anos.

A estigmatização social dos doentes mentais é recorrente. A ignorância a respeito do fato de que grande parte da população sofre de doenças invisíveis afeta a sociedade como um todo e é um fator que também estimula o preconceito. As consequências também atingem a economia: em média, pessoas com dificuldades psicológicas perdem cerca de oito dias de trabalho por mês.

As “doenças invisíveis” atrapalham o cotidiano de seus portadores, como na esquizofrenia, por exemplo, delírios e alucinações prejudicam o desempenho no trabalho, dificultam a socialização e desencadeiam problemas na vida social. Os que sofrem do mal da esquizofrenia às vezes são tachados de “rebeldes” por seus comportamentos peculiares. Os familiares precisam ter a compreensão do que significa a doença, já que serão os mais próximos do indivíduo e, assim, seu

principal alicerce. Os esquizofrênicos têm convicção de suas alucinações, não percebendo que se trata de algo irreal, o que torna muito delicada a situação.

Em artigo publicado pelo Hospital Albert Eistein, nomeado “Esquizofrenia: mistérios da mente”, dados apontam que mais de 2,5 milhões de pessoas em todo o país têm distúrbios esquizofrênicos.

Embora todas as causas ainda sejam desconhecidas, a genética é a principal explicação do desdobramento da esquizofrenia. Porém, alguns hábitos podem ajudar na prevenção do desenvolvimento da doença. A psiquiatra e pesquisadora Taís Moryiama ressalta que “o uso de maconha pode aumentar o risco em até dez vezes se o indivíduo tiver genes que predispõem ao transtorno”. O psiquiatra Jorge Jaber contribue para essa informação ao afirmar que das aproximadas 100 pessoas que ele atende cerca de 30% delas adoeceram psiquiatricamente pelo uso de drogas.

Outra doença que tem sido constante no Brasil e no mundo é a depressão pós-parto. Segundo pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que entrevistou 23.896 mulheres entre 6 e 18 meses após o parto, mais de uma em cada quatro brasileiras apresenta sintomas de depressão pós-parto.

De acordo com o estudo da Fiocruz, no Brasil o índice de mulheres com sintomas é de 26,3%, índice maior do que o registrado também em países da Europa, além de Estados Unidos e Austrália.

Segundo Mariza Theme, da Fundação Fiocruz, a maioria das mulheres que sofre de depressão pós-parto têm 25 anos, embora a faixa etária abranja o início da adolescência até o início da terceira idade.

Em entrevista concedida ao ComunicaUEM, uma vítima dessa patologia explica como foi o processo de aceitação da doença e o tratamento:

“A partir do momento que já não conseguia cuidar do meu bebê eu percebi que algo estava diferente e que precisava de ajuda. Ficava com medo de fazer alguma coisa ruim”, afirma a jovem que preferiu não ser identificada.

Os sintomas da depressão pós-parto foram sentidos quando sentiu desânimo, irritação e pensamentos negativos após o parto. Em toda “doença invisível” o papel dos amigos próximos e da família tem grande importância na recuperação, assim como o preconceito estimula o avanço da doença. O caso da entrevistada não foi diferente:

“Minha família sempre me apoiou, mas alguns achavam que era frescura. A doença não é brincadeira, não! É coisa muito séria. A pessoa se sente muito mal, tem pensamentos suicidas. Na verdade, os sintomas são tão ruins e desagradáveis que por isso alguns acabam se matando”, relata.

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